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quinta-feira, 4 de julho de 2013

Ondjaki!

Ndalu de Almeida nasceu em 1977 (ele também! ;) em Luanda. É sociólogo (formado em Lisboa), poeta, escritor e, acima de tudo, angolano. Escolheu ser Ondjaki, seu pseudônimo na escrita, e também cosmopolita. Já morou em Portugal, nos Estados Unidos e no Brasil (aqui no Rio!); mas é sempre de Luanda e para Luanda com amor, como sua obra transparece.

Uma das características de Ondjaki é, aliás, sua multiplicidade na unidade: começou escrevendo poesias, mas também enveredou pelo campo do teatro, da pintura e do cinema antes de se fixar como escritor. 
.
O documentário Oxalá cresçam Pitangas - histórias de Luanda, filmado com Kiluanje Liberdade e finalizado em 2007, o alçou ao reconhecimento internacional também no domínio da sétima arte (e vale muito o clique - confira aqui).

No campo da escrita, Ondjaki começou na poesia com o livro Actu Sanguíneu (o jogo de palavras é uma característica de sua escrita desde então). 


"poema atoado, com sol
Ondjaki
"estou pertinho e quero brindar contigo: meu coração é um voo de sol"
(Aurelino Costa, poeta português)

... e meu sol é um coração
abençoado
em sal e candura
em busca do rumor das andorinhas
depois do eco
das primaveras.

sento-me à berma da tarde
na esquina do mundo
meu sonho é a montanha adormecida
minha utopia é o veneno
na maça mordida

...e o meu sol
é um voo pelo lado salgado
de um coração
em ternura

ora busco um bosque
ora busco quentura

e a qualquer momento
a qualquer hora
o meu coração é um voo de sol
chicoteando
o dorso do meu desalento...

...se o meu sol segue em paz
- e eu desatento -
é que o sabor do que não vivi
me mantém vivo
me traz alento..............................."

(Lindo, lindo, lindo! O meu coração também é "um voo de sol chicoteando o dorso do meu desalento", Ndalu! E também sobrevive ao sabor do que ainda não conheceu tanto quanto do que vivi... ;)



Ondjaki brilha também nos contos; e se amanhã o medo, livro que saiu pela coleção ponta de lança da língua geral, é um belíssimo conjunto de contos nos quais o autor escolhe tratar do tema que une os contos (o medo) também através de homenagens à vários escritores e músicos brasileiros e portugueses e  intertextualidades. 

Logo no primeiro conto deste livro, A Libélula, a música de Adriana Calcanhoto embala a escrita de uma forma cativante!

"Um som fluido abandonava a casa, roçava na poeira das trepadeiras no jardim, influenciava as mangas e os mamões no seu processo de maturação, arrepiava uma libélula inebriada que ali adormecera, fazia o sol abrandar e chegava ainda forte, ainda nítido, ao ouvido da mulher. Depois disto, um sorriso. (...)" 

Trecho inicial de A Libélula, conto que pertence a coletânea e se amanhã o medo de Ondjaki.
(A música em questão é a linda Sudoeste)

(Para quem quiser saborear um pouquinho mais da escrita de Ondjaki, leia aqui o conto A esquina na íntegra! ;).

Uma das características da escrita de Ondjaki que mais me instigam é sua capacidade de falar de coisas duras, duríssimas, com esse jeito poético - que é agora só dele - meio "moleque"; um jeito que combina um humor leve e meio matreiro com a extrema delicadeza (é bem como um sorriso charmoso e um olhar penetrante no meio de uma lágrima, entendem? ;). Isso, o seu amor por Luanda e o jogo de palavras que ele usa me instigam bastante! Ando querendo ver os desenvolvimentos de sua escrita em outras áreas também, uma vez que Ondjaki escreveu também romances, textos infantis e juvenis; e, ainda, uma tese de mestrado sobre o grande Luandino Vieira. (E com a minha idade, gente! rs rs)  





Obras de Ondjaki para prestar atenção :

Bom dia camaradas - O seu primeiro romance (publicado em 2001).
Avó Dezanove e o segredo soviético - Romance que ganhou o prêmio Jabuti em 2010 na categoria juvenil.
Quantas Madrugadas tem a noite - Porque só com esse título já me ganhou de cara! (Update: Li este livro recentemente e amei - falei sobre ele neste vídeo aqui)
Os da Minha Rua - ganhou o Grande Premio de Conto Camilo Castelo Branco em 2007.
Materiais para a confecção de um espanador de tristezas - Poesia!
dentro de mim faz sul e acto sanguineu - mais poesia! ;)

Os Transparentes - seu último livro publicado (aqui no Brasil foi lançado mês passado pela Companhia da Letras); já estou completamente "louca" para ler este livro! (leia mais sobre o lançamento e sobre o documentário aqui e aqui).


*Texto originalmente publicado pela autora no extinto blog 365 escritores.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

16 coisas que sei sobre Chimamanda Adichie


O título deste post é totalmente inspirado em 16 things you didn't know about Chimamanda Adichie.
A ideia me cativou, pois eu queria fazer um texto diferente sobre esta escritora nigeriana que eu tanto admiro! ;)

Conheci Chimamanda no ano passado e li com sofreguidão seus dois romances publicados: Hibisco Roxo (vencedor do Commonwealth Writter's Prize e do Hurston/Wright Legacy, 2003) e Meio Sol Amarelo (vencedor do Orange Prize e do National Book Critics' Circle Award, 2007); só que li na ordem inversa de produção, rs.

Junto com Mia Couto e Ondjaki, Chimamanda me abriu o olhar e a mente para uma nova literatura, para um mundo novo. Foi através de seus livros que passei a dar mais atenção à literatura africana; hoje indispensável na minha vida, mas até então quase desconhecida e inexistente no meu curriculum de leitora...

Eis que venho dividir com vocês as 16 coisas que eu sei sobre a escrita (e a vida) de Chimamanda Ngozie Adichie - e porque eu acho que os livros dela são absolutamente imperdíveis!

1. Meio Sol Amarelo (MSA) é um romance belíssimo sobre sobrevivência, descoberta, escolha e manutenção de  identidades em meio à guerra e à violência extrema.

2. A estrutura narrativa tripartite de MSA permite olhar uma sociedade e as pessoas que nela vivem, com suas diversas características culturais e históricas, sobre prismas diferenciados, multifacetados e profundos. O livro questiona o olhar simplista e os perigos de ver um povo, uma vida, uma cultura e mesmo uma guerra sob um único olhar (Tema que ela trata de forma muito interessante na palestra "O Perigo de uma história única"; não viu? Então veja abaixo correndo!!! ;)



3. Ugwu, Olanna, Odenigbo, Kainene e Richard - os personagens centrais de MSA - não vão te deixar dormir sem lembrar de suas vivências, dores, aspirações e esperanças... São todos inesquecíveis; mas Ugwu e Olanna são meus preferidos; eu praticamente vivi e dormi junto com eles por duas semanas seguidas. ;) 

4. Nesta obra (MSA) nos deparamos com três personagens chave que são como "tipos ideais" escolhidos pela autora para tratar das consequências devastadoras da guerra: Ugwu é um garoto vindo de uma aldeia pequena e que condensa a tradição e a identidade da sua etnia; Olanna é a nigeriana de classe média alta que estudou na Inglaterra e decide voltar para o seu país e participar ativamente de sua reconstrução e Richard é um inglês intrigado pela cultura e pela história nigerianas que não tem desejos de manter suas raízes e sim de criar novas. Mas é claro que estes personagens são muito mais; a tentativa de tipificá-los não visa simplificar e sim entender o ponto de partida de Chimamanda.

5. Todos estes personagens, bem como os demais de MSA, trazem à tona o conflito central do livro: as supostas fronteiras ou os limites entre o étnico, o nacional, o estrangeiro e o humano. A delimitação de identidades através da origem, da história política e social, da ideologia e das crenças e valores; contraposta à unificação do diferente através da humanidade, do amor e do perdão.

6. Entretanto, essa temática (bem como a discussão de fundo de colonização e barbárie), por si só densa e difícil, aparece no livro de Chimamanda a partir da vivência de seus personagens e não de forma direta; o que torna a leitura muito, muito mais palatável, reflexiva e envolvente. A guerra, a dor e o questionamento da realidade ganham carne e substância a partir dos dilemas e escolhas diárias de Olanna, Ugwu e Richard.

7. Em nenhum outro livro que eu tenha lido recentemente vi os temas da fome, da guerra sem sentido e o da violência extrema serem tratados de forma tão forte, realista e, ao mesmo tempo, tão humana quanto em MSA. A escrita, o enredo e os personagens de Chimamanda conseguem isso de uma forma única e muito interessante.

8. MSA também é muito interessante por outros recursos narrativos e pelos elementos históricos que recupera da guerra civil na Nigéria; mas falar aqui sobre eles estragaria a experiência da leitura, o que considero imperdoável. É preciso ler Meio Sol Amarelo; acredite: é impossível continuar o mesmo depois da imersão neste mundo!




















9. Chimamanda nasceu em 1977; tem 35 anos, é casada, mora parte do ano nos Estados Unidos onde leciona e outra parte na Nigéria e já publicou dois romances e um livro de contos. (e eu também - apenas a parte de ter nascido em 1977, claro! Ano fantástico esse, hein? rs).

10.  Hibisco Roxo (HR) é um romance primoroso onde a descoberta do amor, a vivência da dor e da incomunicabilidade se interpenetram em uma história belíssima.

11. 
Em HR acompanhamos Kambili, uma jovem nigeriana de 15 anos, em sua jornada de profundas transformações no seu modo de perceber o mundo ao seu redor. É o desabrochar de uma flor, mas não uma flor como as outras... E sim uma flor rara e linda como o hibisco roxo...




12.  Neste seu primeiro romance, Chimamanda não utiliza recursos narrativos variados: a narração em primeira pessoa de Kambili com o seu desabrochar para a realidade é o maior deles. Fora isso, o enredo contribui bastante para cativar o leitor que tem em mãos novamente (de uma forma completamente diferente) a possibilidade de reflexão sobre os efeitos dramáticos da colonização na Nigéria, a devastação das tradições locais e suas consequências sociais e políticas (não tomadas no plano estatal, mas sim no plano individual; ou seja, no que diz respeito às pessoas comuns).


13. Ngozie, o nome do meio de Chimamanda, quer dizer abençoada

(E Mercedes, o meu nome do meio, quer dizer "dar graças", perdão; ou seja, outra coisa que temos em comum - Chimamanda é abençoada e eu dou graças por mulheres como ela no meu mundo ;)

14. Ouso dizer que os livros de Chimamanda Adichie são como flores para a alma; necessários para retomar em cada um de nós uma das questões mais profundas que nos deparamos ao longo da nossa existência - o que podemos fazer com o que recebemos na nossa vida, na nossa história pessoal? O que queremos ser apesar de, ou melhor, independentemente do que as circunstâncias nas quais vivemos nos impelem?
Ou seja: para refletir sobre o que escolhemos ser, acreditar e como podemos agir no mundo ao nosso redor. Questionamentos estes que são inescapáveis e que eu quero me fazer e responder a cada momento em que elas se colocam na minha vida. E quando a literatura me permite continuar pensando, elaborando e respondendo à estas e outras perguntas; aí é que amo mais ainda esta arte única que é a de escrever estórias e agir através delas na história humana.



15. Comecei a ler os contos de Chimamanda no livro The Thing Around your Neck e posso dizer que as grandes virtudes de sua escrita e seus eixos temáticos principais estão lá em cada história curta e, principalmente, na escolha de personagens e situações vividas.

16. Por último, só tenho a dizer mais uma coisa:
Chimamanda, queremos mais, MUITO mais! 

;)