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sexta-feira, 29 de março de 2013

O meu Neruda


Pablo Neruda dispensa apresentações; um dos poetas mais lidos, aclamados, publicados e traduzidos em vida do grande século XX! Ganhou o nobel em 1971 e já era então um poeta consagrado no mundo inteiro. Ainda assim eu gostaria de falar um pouco da sua vida antes de contar a minha experiência com a sua poesia única.

Pablo Neruda nasceu no Chile e começou a escrever poemas desde muito novo. Publicou seu primeiro poema aos 14 anos; com 22 já tinha alguns livros de poesias  aclamados em sua terra natal. Depois viajou o mundo  trabalhando como cônsul e passou anos decisivos para sua vida vivendo na Espanha. Foi grande amigo de poetas como Federico García Lorca, Miguel Hernandez, Vinícius de Moraes e também aluno de Gabriela Mistral.

Sua vida na Espanha e a experiência da guerra o marcaram profundamente. Sua relação com o mar, com sua última esposa e com o destino de sua pátria e sua gente o transformaram nos nosso grande Neruda. ;)

Nasceu chileno, mas se tornou latinoamericano, espanhol e portador de uma esperança. Nasceu Ricardo, mas se tornou Pablo: o poeta de Isla Negra, o homem que amava com desespero e ternura, que gostava de colecionar artefatos ligados ao mar e outros inusitados, que admirava Matilde, que sabia amar seus amigos com toda sua alma, que nunca perdeu a capacidade de fazer perguntas e que era solidário a uma causa. Porque um poeta escolhe o que quer ser, assim como escolhe cada palavra e cada estrofe de sua poesia. Assim Pablo escolheu ser o grande Neruda e nos deixou uma obra poética inigualável.



Início de um dos meus poemas favoritos de Neruda!


O meu Neruda da adolescência foi o de Vinte Poemas de Amor e uma Canção desesperada (que poesia inesquecível! Como ficar imune diante das estrofes "Todo te lo tragaste, como la lejanía. Como el mar, como el tiempo. Todo en ti fue naufrágio!"). O poema 15 ressoa na minha alma até hoje... porque fez parte de trocas e confidências de um amor único e, na época, impossível...



Depois veio o Neruda de Barcarola (A preferida? Não consigo escolher, mas amo demais essa poesia...)  de Canto General, do belíssimo Reunión bajos las nuevas banderas e de España en el corazón... Não posso deixar de ler esta estrofe inúmeras vezes e sentir um aperto no peito:

"(...) Y una mañana todo estava ardiendo
y una mañana las hogueras
salían de la tierra
devorando seres
y desde enonces fuego,
pólvora desde entonces
y desde entonces sangre.
Bandidos con aviones y con moros,
Bandidos con sortijas y duquesas,
bandidos con frailes negros bendiciendo
venían por el cielo a matar niños,
y por las calles la sangre de los niños
corría simplemente como sangre de niños. (...)"
Trecho de España en él corazón, Pablo Neruda.


E hoje ainda tenho um mundo de poesias do Neruda para descobrir (que bom!). 

As últimas alegrias foram Ode a uma estrela e Livro das perguntas que comprei nas belíssimas edições da Cosac para homenagear o querido poeta. 

Neruda merece edições especiais assim; e como! (e nós, leitores apaixonados, agradecemos!)

Gostei muito dos dois livros, mas O Livro das perguntas é de uma singeleza imperdível, necessária e vital. 

Recomendo com força a todos os que sabem que é melhor ter sempre perguntas do que respostas. ;)


Para terminar este post e começar bem o dia (rs) dois poemas absolutamente incríveis escritos em 1973 (este também, um ano para não esquecer jamais): Vinicius em homenagem a Neruda e  Pablo: sereno, terno e simples no fim da vida (Pido silencio).


"Breve consideração
à margem do ano assassino de 1973.

Que ano mais sem critério
Esse de setenta e três...
Levou para o cemitério
Três Pablos de uma só vez.
Tês Pablos, não três pablinhos
No tempo como no espaço
Pablos de muitos caminhos:
Neruda, Casals, Picasso.

Três Pablos que se empenharam
Contra o facismo espanhol
Três Pablos que muito amaram
Três Pablos cheios de Sol.
Um trio de imensos Pablos
Em gênio e demonstração
Feita de engenho, trabalho
Pincel, arco e escrita à mão.

Três publicíssimos Pablos
Picasso, Casals, Neruda
Três Pablos de muita agenda
Três Pablos de muita ajuda.
Três líderes cuja morte
O mundo inteiro sentiu...
Ô ano triste e sem sorte:

- VÁ PARA A PUTA QUE O PARIU!
"
Vinícius de Moraes (em: História natural de Pablo Neruda. A elegia que vem de longe).



"Pido silencio

Ahora me dejen tranquilo
Ahora se acostumbren sin mí
Yo voy a cerrar los ojos
Y solo quiero cinco cosas
Cinco raizes preferidas
Una es el amor sin fin
lo segundo es ver el otoño
No puedo ser sin que las hojas
vuelen y vuelvan a la tierra
lo tercero és el grabe invierno
la llúvia que a mí
la acarícia del fuego en el frío silvestre
En cuarto lugar el verano
redondo como una sandía
la quinta cosa son tus ojos
Matilde mía, bién amada,
no quiero dormir sin tus ojos
no quiero ser sin que me mires
Yo cambio la primavera 
por que me sigas mirando"
Pablo Neruda





Para ler Neruda (serviço):

Pablo Neruda Antologia Poética. Livraria José Olympio Editora. (Edição Bilíngue! Bom preço na Estante Virtual;)
Ode a uma Estrela, Pablo Neruda. Cosac Naify
Livro das Perguntas, Pablo Neruda. Cosac Naify (tradução primorosa de Ferreira Gullar)
História natural de Pablo Neruda. A elegia que vem de longe, Vinicius de Moraes. Xilogravuras de Calasans Neto. (Uma belíssima homenagem a Neruda!)
Pablo Neruda Antología General. Real Academia Española, edición comemorativa. (MUITO boa, vende com preço bom na FNAC).

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Um pouco de Mario Quintana: porque a poesia é necessária!




"Carnaval" bombando aqui (ou seja: leitura de Laranja Mecânica, Pynchon, Contos de Horror e muito estudo! rs) e eis que me pego de repente precisando loucamente de poesia... Imediatamente lembrei de um livro que comprei recentemente do Mario Quintana. Ah, como me reconfortam a alma os versos do querido Quintana!




A cor do invisível traz vários poemas escritos na maturidade do poeta e alguns de outros momentos de sua vida inéditos. Pelo que li até agora é uma seleção muito especial. E a edição da Alfaguara está primorosa!

(E olha que eu quase comprei este livro com outra capa! Ainda bem que deu errado aquela compra e eu pude escolher essa linda amarelinha da Alfaguara!!! rs)


Abaixo deixo uma poesia lindíssima para inspirar todos vocês nesse novo começo de ano pós-carnaval, pessoas lindas! ;)




Uma lindeza em forma de poema, não é? Adoro como Mario Quintana alia a sua pureza única com o olhar sobre as belezas da natureza e nos deixa com aquela esperança e brilho nos olhos que dá gosto de sentir!

Beijos e boa semana!

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Ah, o Benedetti...


"Arco-íris

Às vezes
é claro
você sorri
e não importa quão linda
ou quão feia
quão velha
ou quão jovem
quão muito
ou quão pouco
você realmente
seja

sorria
como se fosse
uma revelação
e seu sorriso anula
todas as anteriores
caducam no momento
seus rostos como máscaras
seus olhos duros
frágeis
como espelhos ovais
sua boca de morder
seu queixo de capricho
suas bochechas perfumadas
suas pálpebras
seu medo

sorria
e você nasce
assume o mundo
olha
e ao olhar
indefesa
nua
transparente

e por aí
se o sorriso vem
de muito
muito dentro
você pode chorar
simplesmente
sem dilacerar-se
sem desesperar-se
sem convocar a morte
nem sentir-se vazia

chorar
só chorar
então seu sorriso
se ainda existe
se torna um arco-íris"

Mario Benedetti em O Amor, as Mulheres e a vida. Antologia de poemas de Amor.



segunda-feira, 8 de outubro de 2012

A Esquina - de Ondjaki!

Foto: Deborah Nuñez


Para começar a semana com doçura... o lindo conto de Ondjaki!


"A Esquina

Em [...], numa data social em que a vida por si só se tornou difícil e azeda, um homem de meia-idade inventou uma profissão para si mesmo. No sorriso da sua descoberta, pintou de verde-escuro um banco pequenino, passou a manhã esperando que o sol ausente o secasse com a temperatura possível. Engomou o fato castanho e escolheu aleatoriamente uma das muitas esquinas da cidade. Num cartão pequeno escreveu à máquina: "tiram-se dúvidas".
Resistiu pacientemente aos primeiros vinte e três dias em que ninguém caiu na tentação de lhe fazer uma pergunta que fosse. É sabido que as pessoas paravam para ler o cartão, e que sorriam ou  acenavam, cumprimentando-o. Está escrito que ele ripostava com a agradabilidade do seu sorriso curto, cordial, calmo.  No vigésimo quarto dia uma criança sentou-se no chão ao pé dele. Ao fim de algum tempo, sorriu. O homem também sorriu. A criança, miopemente, soletrou com a boca e os olhos: ti-ram-se dú-vi-das... Fechou o seu sorrisinho e olhou-o intrigada. Quando se preparava para murmurar algo, ou quando o homem se preparava para murmurar algo de volta, um senhor prostrou-se em frente ao banquinho, à mesinha, à criança, aos seus sorrisos parecidos.
Não havia preços. O certo é que a criança todos os dias sentava ali, o homem todos dias lá ia, as pessoas apareciam com mais frequência. A esquina ficou conhecida como esquina da dúvida, onde ainda hoje todos os cafés tem pinturas ou esculturas do homem, o banco, a mesa, o cartaz e a criança ao lado - no chão.
Se chovia retiravam-se para um parapeito. Se fazia vento aconchegavam as pernas um no outro. De longe, o que se via era o sorriso calmo, cordial, curto do homem intercalado com palavras poucas, mansas. As pessoas sorrindo se afastavam.
Numa tarde fria, bela, chegaram a acumular-se três pessoas para tirarem dúvidas. Quando o homem disso se apercebeu, enternecido, olhou a criança. A criança, supreendida com aquele olhar extenso, olhou o cartaz. Soletrou mais alto do que da primeira vez, para que todos na fila ouvissem: ti-ram-se dú-vi-das...
O tirador de dúvidas afagou o menino. Disse-lhe um segredo: dúvida é quando não sabemos bem alguma coisa. O menino enxugou o ranho transparente do seu lábio, sorriu, procurou a orelha peluda do homem: dúvida é amanhã?
Mãos dadas, dúvida virou nome de esquina."

Texto integral do conto A Esquina de Ondjaki, publicado na obra: E se amanhã o medo, editado pela Língua Geral. 

=D