Terminei a leitura de A Trégua com o coração em frangalhos e muitas (muitas!) lágrimas na face... O choro copioso, como há muito não sentia, me permitiu extravasar a dor que experimentei com Santomé, o personagem principal da trama.
Certamente vivi com esta obra um desses momentos inesquecíveis na nossa vida de leitores; um desses espaços ou lugares nos quais entramos através da literatura que são capazes de apagar temporariamente a distância entre a pessoa e o texto. Não há distinção mais entre você e o personagem, entre o passado e o futuro, entre a dor do outro e a sua. Eu era Santomé por um espaço de "tempo" onde o próprio tempo (que separa) não existia mais... Eu e ele estávamos unidos na dor mais absurda e indizível; eu era ele e ele era palpável em mim e não apenas um personagem... Eu, ele, a dor de existir e sermos finitos, a dor de sermos sujeitos ao tempo, à morte... ele-eu e a dor de não podermos nos agarrar em nada mais além de nós mesmos.
Ah, meu caro Benedetti; como você consegue isso? Como você me faz sair completamente de mim mesma para me encontrar tantas e tantas vezes nas dores e alegrias de outros... E, depois do choro, eu, uma outra que não conheço e eu mesma novamente. Eu mesma, mas uma nova pessoa sempre. Uma pessoa que aprecia e deseja ardentemente essa capacidade poética de viver não apenas a minha própria vida, mas seguir encontrando mundos possíveis a partir das histórias de outros.
No post em homenagem ao Benedetti que fiz para o 365 escritores (
aqui) comentei que uma das características que mais me chama atenção nos romances do escritor urguaio é justamente sua habilidade incrível no campo da construção dos personagens.
A Trégua confirma essa virtude da escrita de Benedetti e nos leva a conhecer um Martín Santomé inesquecível. Impossível ficar imune a este homem simples, de vida pacata e desinteressante. Sim, é isso mesmo que você leu: Santomé é um homem comum, sem nada de extraórdinário, de heróico ou muito transcendente. A forma como o conhecemos pouco a pouco através do seu diário também não tem nada de fenomenal; em alguns momentos chega a ser até maçante (dá vontade de sacudir o Santomé, rs).
Mas aí vem a trégua... aquele momento de descanso; a paragem temporária de hostilidades. Aquele contexto, tempo, que te permite refletir. E é nessa trégua (com muitas interpretações no livro) que conhecemos Martín Santomé.
Mais não digo, não posso! Vá você mesmo conhecer, se surpreender, se perder e se encontrar em vários momentos do texto. O livro merece que você se perca na leitura, tenha certeza.
Alguns trechos que não comprometem a leitura para deixar aqui um gostinho desse belo livro:
"Quando se está no prórpio foco da vida, é impossível refletir. E eu quero refletir, medir o mais aproximadamente possível esta coisa estranha que está me acontecendo, reconhecer meus próprios sinais , compensar minha falta de juventude com meu excesso de consciência"
"De repente, tive consciência de que aquele momento, aquela fatia de cotidianidade, era o grau máximo de bem-estar, de Ventura."
"Esta manhã tomei um ônibus e desci na agraciada com 19 de Abril. Há anos não andava por aqueles lados. Alimentei a ilusão de estar visitando uma cidade desconhecida. Só agora me dei conta de que me aconstumei a viver em ruas sem árvores. E como podem ser irremediavelmente frias!
Uma das coisas mas agradáveis da vida: ver como o sol se filtra por entre as folhas. "
E, é claro, as pérolas de Benedetti que eu amo:
"O cardápio preparado por Blanca foi o ponto mais alto da noite. Naturalmente, isso também predispõe ao bom humor. Não é de todo absurdo que um frango à portuguesa me deixe mais otimista do que uma tortilla de batatas. Nunca terá ocorrido a nenhum sociólogo efetuar uma cuidadosa análise sobre a influência das digestões na cultura, na economia e na política uruguaias? Como comemos, meu Deus! Na alegria, na dor, no assombro, no desalento. Nossa sensibilidade é primordilmente digestiva. Nossa inata vocação de democratas se apoia num velho postulado: "Todos precisamos comer".
;)