domingo, 25 de agosto de 2013

Ricardo Lísias (Parte 1 - O Céu dos Suicidas)

Ricardo Lísias é paulista, tem 38 anos e publicou cinco romances e mais diversos ensaios, crônicas e contos em vários meios. Eu li O céu de suicidas no início deste ano e, recentemente, fui arrebatada por seu último romance. O texto abaixo trata da minha primeira experiência com o escritor paulistano (foi escrito originalmente para o extinto Blog 365 escritores) e amanhã falarei um pouco das impressões de leitura do angustiante Divórcio.


Resolvi escrever este post de uma maneira diferente. A proposta é desenvolver um diálogo possível com Lísias a partir de trechos do seu livro O Céu dos Suicidas (sem spoilers, claro!) e de uma palestra/conversa que o autor deu em 18 de abril de 2012 (publicada  aqui no Jornal Rascunho).

Os trechos em azul marinho são retirados da fala de Lísias no encontro publicado no Rascunho e os trechos em roxo são partes do romance (O Céu dos Suicidas: Editora Alfaguara, 2012); os demais são minhas tentativas de conversar com este autor que me intrigou bastante e que convido vocês a conhecer através deste inusitado texto.

Antes de começar, porém, é preciso falar um pouco sobre O céu dos suicidas. O ponto de partida do livro é o suicídio de um grande amigo de Lísias; o resto é ficção. O elemento central da narrativa é o personagem principal: o cara que perdeu um amigo que se suicidou tentando lidar com isso. E o texto; bom, o texto é ótimo! Em uma situação na qual não temos controle em absoluto sobre nada; na qual a dor, a raiva, a angústia tomam conta; em uma situação assim como podemos seguir vivendo? Essa é a pergunta; e o personagem de O céu dos suicidas vivencia uma verdadeira odisseia pessoal que vai te prender da primeira à última linha.

 "Desde que tudo isso começou, tenho percebido que sentir saudades significa, em alguma parcela, arrepender-se"
"Até o suicídio do meu grande amigo André, nunca tive vontade de voltar atrás com nada. Agora, comecei a sentir saudades de tudo."

Um dos primeiros elementos do texto que me chamou atenção foi a ideia de saudade evocada pelo autor.
Afinal: o que é sentir saudade? Em parte, relacionar saudade com arrependimento foi um choque para mim. Porque saudade não envolve, à primeira vista, culpa e sim uma miríade de sentimentos positivos. Temos saudade porque foi bom, temos saudade porque foi único; porque nos deu alegria, júbilo, e porque acabamos romantizando e recriando a situação (ou a pessoa) dentro de nós. Ter saudade é querer perpetuar algo muito bom que não temos mais.

Mas aí vem o Lísias e nos dá esse primeiro "tapa": ter saudade também é arrepender-se e lidar com o fato de que, de alguma maneira, você perdeu o que tinha (seja uma pessoa, seja uma situação ou algo em você mesmo...). Ter saudade é ter essa falta, esse arrependimento: essa vontade de ter de volta algo que já tivemos...
E sim, agora a saudade que eu sinto de uma vida que não vivo mais ficou muito mais presente dentro de mim... Ter saudade dói, dilacera e gera arrependimento. 


"Pra mim, ao menos, a ficção serve primeiro como uma espécie de resguardo do mundo de verdade. Quando quero me afastar do mundo de verdade ou acreditar em outras coisas ou procurar outras realidades e ir atrás de novas perspectivas, sobretudo procurando sofisticações maiores do que o dia-a-dia oferece, eu procuro a ficção. Ela oferece uma espécie de fuga possível, às vezes mais sofisticada, de mais bom gosto, um resguardo contra a vulgaridade, contra o mau gosto diário."

Ah, Lísias, essa sua forma tão poética e, ao mesmo tempo certeira, de definir algo que me encanta na literatura foi deliciosa!
Porque é preciso literatura para fugir da vulgaridade; porque é necessário ter a literatura justamente como o mundo do possível, daquilo que nos liberta do cotidiano idiotizante e que transforma muitos dos nossos sonhos impossíveis de supérfluos para vitais.
(e possível sofisticado foi ótimo! Nunca mais vou esquecer isso! ;) 


"Sempre que estou escrevendo um livro, sempre que ele já está planejado, eu acordo de manhã e faço toda a parte da obra que tenho planejada para aquele dia. E só começo as atividades diárias quando consigo encerrar aquela parte. Escrevo todo dia, pela manhã. Escrevo a mão e a lápis. Tenho, evidentemente, computador. Escrevo em folha de papel almaço. Quando encerro, uma das tarefas diárias é digitar; a primeira parte da revisão já é feita quando passo da folha de almaço para o computador. É muito lento".


Quem não gosta de saber como se desenvolve o processo criativo e quais são as manias de um escritor? 
Eu adoro!
Outra coisa que eu gosto muito é papel almaço. Obrigada, Lísias, por trazer de volta para mim o amor pelo papel almaço (comprei uma pilha! ;).


"Amanheceu um belo dia. São típicos dessas cidades horrorosas que não tem nada para oferecer além do clima ameno, o céu azul e uma brisa agradável. Um horror. Lembro-me muito bem desses dias quando fazia faculdade aqui: logo tudo evoluía para um frio enorme".


Ah, como eu me deliciei com a ironia e o humor de Lísias em O céu dos suicidas! A escrita deste livro te leva a uma experiência interessante: é rápida, intensa e muito forte. Além disso é permeada de momentos de muito humor, ironias e situações extremamente absurdas e perfeitamente "reais".


"O principal risco de um livro como O céu dos suicidas é acharem que o personagem é realmente você. Por exemplo, minha mãe acha que todo esse negócio aconteceu de fato, mesmo as passagens em que ela entra e que eu falo para ela: “mas você fez isso?”. “Você não fez isso, isso não aconteceu.” Ela já acha que aconteceu. Então, tem um problema inerente à leitura, de as pessoas fazerem uma leitura mais imediata. Porque uma coisa é fato: se eu escrever e contar o que aconteceu hoje, não é mais o que aconteceu hoje. Tem a mediação da linguagem que modificou tudo"

Dá para imaginar o tipo de pergunta que o Lísias deve ouvir repetidamente??? (Ainda mais depois de Divórcio! rs). Por uma leitura menos realista e imediatista, por favor! O trecho abaixo é o melhor:

"O bom leitor é aquele que consegue trazer o texto para os interesses dele mesmo".
"Quando as pessoas leem literatura, elas precisam esquecer um pouco o autor e colocar elas mesmas como importantes".

É isso! (sem mais palavras minhas, pois o Lísias disse tudo nessas duas frases acima. ;)


Outra do Lísias quando perguntado sobre o que é fundamental para a escrita: 
"Concentração e técnica — pelo menos pra mim. Concentração, técnica, nenhuma concessão, radicalismo com a forma, nenhuma concessão com o público, nem com o glamour, nem com o meio literário".

Esta parte eu marquei, pois também estou em um momento no qual percebo a importância de não fazer nenhuma concessão. O importante é escrever para você mesmo; escrever o que você quer dizer, soltar a sua voz, suas inquietações e interesses. Fazer concessões deforma, distrai e, invariavelmente, transtorna o resultado.

"Uma literatura vulgar se caracteriza pela preocupação excessiva com o próprio umbigo, por exemplo, a falta de preocupação com o outro, uma facilidade no discurso, uma facilidade formal muito grande, a tentativa de barateamento da linguagem, a tentativa de barateamento ideológico, a falta de resistência aos discursos dominantes, a covardia de enfrentar discursos realmente fortes, a entrega ao discurso oficial".

E esta frase para fechar o post: está boa para vocês? Porque para mim está ótima! Concordo com o Lísias em gênero, número e grau nesta questão do que é vulgarizar a literatura.
Eu não quero facilidades; eu não quero senso comum: eu quero boa literatura! O resto pode deixar comigo que eu penso.


Referências:
Lísias, Ricardo. O céu dos Suicidas. Alfaguara, 2012.
Lísias, Ricardo. Rascunho. Disponível em: http://rascunho.gazetadopovo.com.br/ricardo-lisias/
Fonte das Imagens: arlequinal.com.br e revistalingua.uol.com.br.

domingo, 11 de agosto de 2013

Entrevista a Ondjaki!

O Ondjaki já apareceu aqui e no vlog várias vezes pois acompanho com muito prazer a sua obra (mais neste post)... Imaginem então a minha emoção quando ele aceitou responder umas perguntas minhas e da Inês?!
; ))))))

Antes da entrevista, aproveito para divulgar os novos livros de Ondjaki publicados este ano no Brasil: Os Transparentes, com edição da Companhia das Letras e Uma escuridão bonita que saiu pela Editora Pallas. 

E uma informação para os que estarão na Bienal do Livro do Rio de Janeiro: Ondjaki participará na mesa "Contar-mostrar uma história: assim nasce uma criança", com Julia Friese, e Graça Lima, sob mediação de Christine Röhrig (31/08). Vamos? ;)

Abaixo a entrevista inspiradora e que só aumentou nossa admiração por este escritor e poeta de Luanda já tão querido! ;)


Inês: Viveu em Luanda, em Lisboa, no Rio de Janeiro. São três cidades diferentes, em três continentes diferentes. Para além da língua, há mais alguma coisa que as una?
Deve haver... Mas são cidades radicalmente diferentes, no tecido humano, paisagístico. Eu realmente não saberia dizer o que as une, porque mesmo a língua parece (e talvez seja) a mesma, mas depois a linguagem e o 'modo de falar' é muito diversificado. Por modo de falar entendo mais do que a fala, também o modo de comunicar, de brincar, de esperar, celebrar. É uma pergunta difícil. Tento responder daqui a dez anos.
  
Denise: Vários escritores brasileiros já foram mencionados como influentes na sua formação (Graciliano, Manoel de Barros, Guimarães Rosa e Clarice). O conto "lábios em lava", da coletânea "e se amanhã o medo", tem como epígrafe um trecho do mexicano Carlos Fuentes. Como é sua relação com a literatura latino-americana?  Quais outros escritores latino-americanos foram importantes na sua formação e te inspiram?
Costumo dizer que são mais os livros que os autores. Eu li poucos autores na sua totalidade. Gosto mais de frequentar alguns livros ou mesmo algumas passagens. Posso dizer que li razoavelmente bem Manoel de Barros, mas não posso dizer o mesmo de Clarice ou Guimarães. Eu lembro-me de ter entrado devagar nos contos latino americanos... E de ter pensado, fascinadamente assustado: "nunca mais sairei daqui..." É um pouco verdade. São muitos autores bons da américa latina. São muitos livros, muitos contos. E, para dizer a verdade, é uma grande vertigem. Admitindo que a américa latina não é uma "mancha" literária, e há muitas especificidades, mas a pujança, isso a que quero chamar de vertigem, é poderosa. Ou pelo menos toca-me desse modo. Eu penso que é um pouco o que se passa com o continente africano: as nossas realidades são muitíssimo fortes, fora, totalmente fora dos limites apenas da lógica e do racional. Não são apenas os eventos que são bons para a literatura; o modo de as pessoas interpretarem a vida, de a atravessarem, de fazerem dela matéria para o teatro ou a poesia quotidiana, isso dá material forte para a literatura. Seja fantástica ou não, a literatura vive muito desse "olhar criativo" do que já foi olhado ou vivido pela população. Penso que nesse aspecto alguns autores africanos aproximam-se de autores latino americanos. Isto tudo para dizer que não são necessariamente os nomes, os autores; é mais a "coisa toda", a escrita e até a realidade latino-americana que me fascina. Vivo no Brasil de momento, tenho a oportunidade de viajar aqui dentro, e começo agora a circular mais por outros países. Tenho uma imensa curiosidade por alguns lugares que foram literários e onde é necessário pôr os olhos, o Chile, Colômbia, Peru. Há-de chegar esse tempo. Também tenho vivido, não sei porquê, ultimamente, uma enorme ânsia de ir conhecer o Uruguay...
  
Inês: "Quantas madrugadas tem a noite", "E se amanhã o medo", "Dentro de mim faz sul", "Materiais para confecção de um espanador de tristezas". Como é o processo de criação destes títulos que, sozinhos, já têm tanto para contar?
Há títulos que nos chegam desde os primeiros dias de escrita. Ou um pouco antes. Há outros que vêm de dentro, seja da estória ou da boca de algum personagem. "Quantas madrugadas tem a noite" foi dificílimo. Teve outros títulos. De repente vi que já lá estava, numa frase do próprio AdolfoDido. Sobretudo, e acho que não sei explicar isto muito bem, o que busco é ficar bem com o título. Eu. Eu quero ficar em paz com um título, não quero arrepender-me dele uns anos depois. Isto é um compromisso poético, talvez metafísico, entre o livro, o conteúdo, e eu. "Dentro de mim faz Sul" é um dos mais equilibrados nesse sentido. Estamos todos em paz com essa sentença, o livro, o título, eu. Digo tudo isto a brincar, evidentemente. Quem escolhe o título dos meus livros são os mesmos dois vizinhos que os escrevem. Eu limito-me a assinar.


Denise: Sabemos da sua predileção pelo conto curto e pela influência de diferentes formas de linguagem nesse gênero. Quais as características mais importantes de um bom conto? Poderia citar alguns dos seus preferidos?
Isso não sei dizer... O conto tem que ser bom. Ponto final. Pode ser curto e bom. Longo e bom. E há estórias menos bem escritas. É evidente que Borges escreveu belíssimos contos. García Márquez também. Não tenho nomes presentes, mas certamente há contos de Borges, Guimarães, García Márquez, Luandino Vieira, Mia Couto, Manuel Rui, que estão entre os meus preferidos. Mas ficam sempre nomes por lembrar. Daqui  meia hora a minha resposta seria diferente. Felizmente.
  
Inês: Disse numa entrevista que a história que queria contar é que determinava a técnica linguística utilizada, se recorreria a um estilo mais poético/lírico ou mais coloquial. Se estivesse a escrever a história da sua vida, como seria a linguagem?
Boa tentativa... Ainda não sei. Mas eu já me atrevi, ainda bastante novo, a escrever longos pedaços da história da minha vida. A infância está quase toda mapeada, e algumas (outras) coisas já estão escritas (só não estão ainda publicadas). Há a tendência para ser a voz de "um certo narrador" (do "Bom dia camaradas") a tratar da infância. Mas isso poderá mudar. Realmente escreve-se com a voz possível, com a voz que temos para perseguir uma pequena obsessão. Às vezes um livro é isso, algo que precisamos de contar, algo que temos que tirar de nós. Ou algo que nos acontece sonhar em forma de escrever. Por isso não sei se dá para pensar tanto na linguagem e na técnica. Surge. Sai. Lida-se com isso. E depois logo se vê. Muito se escreve também ao reescrever...

Denise: Entre as suas diversas obras (contos, poesias e romances) existe alguma que você tenha um afeto especial? E qual foi a mais difícil de escrever?
Com os livros, por vezes, aparece um lado cruel (não sei se necessário...): estamos incrivelmente ligados a eles e depois, com a finalização ou com a publicação, há um corte. Que dói, e que é necessário. Uns tempos mais tarde, fazemos as pazes. Comigo é assim. Fico farto, zangado, frustrado ou triste nas últimas revisões. Nem sempre o processo é claro, no sentido emocional. Ou seja, movemo-nos em territórios delicados no momento da escrita. E ao sair desses territórios, já não somos os mesmos. Certamente um dos mais difíceis de escrever foi o "madrugadas". Certamente, até ao momento, o mais difícil em todos os aspectos foi "Os transparentes". Ainda não fiz as pazes com ele. E já estamos em 2013...


Inês: Eu, sendo portuguesa, experimento algum estranhamento enquanto leio os seus livros, principalmente no que toca a algumas palavras ou expressões que não conheço, muitas delas tipicamente angolanas. Esse estranhamento é, para mim, uma das partes mais marcantes da leitura. Estando a sua obra traduzida para inglês, francês, espanhol, alemão, etc., preocupa-se que, durante o processo da tradução, se possa perder algum desse encanto?
Não se preocupe, eu, enquanto angolano, também sinto (bons ou não) estranhamentos quando leio literatura portuguesa ou brasileira. Faz parte, acho eu, dessa relação dúbia de muita e nenhuma familiaridade com a lingua e as linguagens de "um outro". Quanto às traduções, faço como um dos meus personagens em relação à água fervida: rezo. Rezo para que o resultado seja o menos mau possível, porque a tradução é uma área muito delicada e por melhores que sejam as intenções, o resultado é muito aleatório... Isto é, eu não posso controlar nada. Sugiro pequenas alterações nas duas linguas que posso entender (espanhol e inglês), mas são apenas sugestões pontuais. O sentido da coisa, o ritmo, a brincadeira, a ironia, o jogo, a pausa, são os elementos que dificultam e podem valorizar uma boa tradução. Chamo atenção para isto: os tradutores ocupam-se de uma arte muito elevada, na minha opinião, e são muitíssimo mal pagos. Devia haver manifestações em prol da valorização do trabalho dos tradutores. Estou a falar a sério. Agora, como em todas as profissões, existem bons e menos bons tradutores. Por isso, vou rezar mais um bocadinho...


Denise: Em entrevista ao programa entrelinhas você afirma que o olhar sobre a guerra e sobre o passado do seu país nas suas obras procura ser um olhar prospectivo; que pense no futuro de Luanda, de Angola. (Trecho: “Nós que crescemos em Luanda na realidade, apesar das pessoas não saberem, nós fomos os mais sortudos, porque a guerra estava fora de Luanda (...). Então eu tenho muita delicadeza e muito pudor em falar desse período de guerra que era, mas não para nós que estávamos em Luanda. Eu acho que, mesmo para falar da guerra e mesmo para falar do que não está bem em Angola, nós devemos falar numa atitude já pra frente, numa atitude a apontar para o futuro. Se eu não tenho soluções, e evidentemente que não as tenho, pelo menos que o meu tratamento literário seja um tratamento que dê dignidade à situação. Porque há coisas que já são indignas: a guerra é indigna, o sofrimento das crianças é indigno. Eu não posso reforçar aquilo que é indigno”. Ondjaki, programa entrelinhas; https://www.youtube.com/watch?v=X3kY22aHsLQ). Poderia falar um pouco sobre como a literatura pode trazer novo significado para o sofrimento humano e sobre o papel da ficção para o futuro das sociedades?
Eu realmente não sei se a literatura poderá trazer um novo significado para o sofrimento humano... Eu penso que há qualquer coisa de poeticamente misterioso nisso que rodeia um livro. E o que rodeia um livro, somos todos os que vivemos a vida, os que a observamos, os que a escrevemos e os que a lemos, depois, em formato de livro. Isto é, tenho esperança que qualquer pessoa, qualquer velho ou criança, ao ler uma estória, poema ou teatro, esteja por alguns momentos numa condição de leveza. E não é leveza por ser "leve" ou "etéreo": é leveza porque está longe da sua condição quotidiana, contínua, de ser humano, ser social, ocupado, absorto no real. Perto de um livro, às vezes, estamos absortos do irreal, ou do surreal. Digamos, um livro existe mais no momento de ser lido, de ser interpretado. Quieto, ele é um objecto à espera de comunicar, e de ser desejado. Quieto, um livro é um conjunto de papel e letrinhas e ideias. Nas mãos, aos olhos de alguém, esse livro é um mundo, uma arma de imaginação, uma armadilha de desejos, um lugar de dor, fantasia e poesia. Se tudo isto, de vez em quando, em doses mínimas, puder "tocar" a humanidade, seja de que maneira for, então estamos num caminho interessante. Portanto, não sei se é verdade, mas talvez um dos papéis da ficção seja o de aproximar a Humanidade a si mesma. Ou não.


Inês: Enquanto luandense, quais as principais diferenças que encontra entre a Luanda da sua infância, descrita, por exemplo, em "Os da minha rua", e a Luanda dos dias de hoje, palco do seu novo romance "Os Transparentes"?
Não leve a mal, mas responder à sua questão é uma mera tentativa de se resumir uma coisa que leva uns bons meses a contar... E umas boas refeições e umas boas cervejas. Levei muito tempo a escrever esses dois livrinhos, sobretudo o último. Parte da sua resposta está em ambos. Parte está na vida, no dia a dia, no modo como hoje se encara a cidade... Somos todos culpados: quem manda, e quem se deixa mandar.         
  
Denise: Para quem quer começar a enveredar pelo mundo da literatura africana, quais cinco livros você recomenda?
Seria uma resposta muito difícil...........
  
Inês: Os seus livros estão cheios de referências musicais (Caetano Veloso, Jorge Palma, Adriana Calcanhoto, canções soltas como Trem das Onze entre outras). Há alguma música que lhe provoque «aquela magia de um outro mundo» de "O Assobiador"?
Trecho da obra: «(...) que mexesse não só com o ouvido das pessoas, mas alcançasse, de modo incisivo, a profundidade das suas almas, o recôndito canto onde cada um escondia as suas coisas - essa assustadora gruta a que muitos chamam âmago do ser.»
Há certas músicas, certos momentos musicais de Wim Mertens (pianista belga) e mesmo de Keith Jarrett que já me provocaram altíssimas intensidades poéticas. Boas ou menos boas intensidades. Eu escrevo muito com música, usando territórios emocionais que são causados ou encontrados por via musical.

Denise: Uma curiosidade: que livro está lendo agora? E como seleciona suas leituras?

Não sei "como" selecciono... Estou quase sempre a ler poesia, não de modo sistematizado, mas conforme me apetece. Livremente. Mas acabei de reler "Ninguém escreve ao coronel" (García Márquez); li "A indestrutível condição de ter sido" (Helena Terra) e hoje mesmo comecei "Sabina e os manuscritos do Kuíto" (Arnaldo Santos). 

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Obrigada, Ondjaki! ;)

E um agradecimento especial também à linda Juliana Gervason que ajudou a tornar possível esta entrevista! ;)

PS: Esta entrevista também será publicada no Blog da  Inês, amiga querida com a qual tenho o enorme prazer de compartilhar tantas alegrias literárias e da vida!!!

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Maratona Literária!


7 livros, 7 dias = simples assim! ;)

Vamos lá? Abaixo o comentários sobre a primeira leitura: Ratos e homens de John Steinbeck: gostei muito!




Abraços!

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Ondjaki!

Ndalu de Almeida nasceu em 1977 (ele também! ;) em Luanda. É sociólogo (formado em Lisboa), poeta, escritor e, acima de tudo, angolano. Escolheu ser Ondjaki, seu pseudônimo na escrita, e também cosmopolita. Já morou em Portugal, nos Estados Unidos e no Brasil (aqui no Rio!); mas é sempre de Luanda e para Luanda com amor, como sua obra transparece.

Uma das características de Ondjaki é, aliás, sua multiplicidade na unidade: começou escrevendo poesias, mas também enveredou pelo campo do teatro, da pintura e do cinema antes de se fixar como escritor. 
.
O documentário Oxalá cresçam Pitangas - histórias de Luanda, filmado com Kiluanje Liberdade e finalizado em 2007, o alçou ao reconhecimento internacional também no domínio da sétima arte (e vale muito o clique - confira aqui).

No campo da escrita, Ondjaki começou na poesia com o livro Actu Sanguíneu (o jogo de palavras é uma característica de sua escrita desde então). 


"poema atoado, com sol
Ondjaki
"estou pertinho e quero brindar contigo: meu coração é um voo de sol"
(Aurelino Costa, poeta português)

... e meu sol é um coração
abençoado
em sal e candura
em busca do rumor das andorinhas
depois do eco
das primaveras.

sento-me à berma da tarde
na esquina do mundo
meu sonho é a montanha adormecida
minha utopia é o veneno
na maça mordida

...e o meu sol
é um voo pelo lado salgado
de um coração
em ternura

ora busco um bosque
ora busco quentura

e a qualquer momento
a qualquer hora
o meu coração é um voo de sol
chicoteando
o dorso do meu desalento...

...se o meu sol segue em paz
- e eu desatento -
é que o sabor do que não vivi
me mantém vivo
me traz alento..............................."

(Lindo, lindo, lindo! O meu coração também é "um voo de sol chicoteando o dorso do meu desalento", Ndalu! E também sobrevive ao sabor do que ainda não conheceu tanto quanto do que vivi... ;)



Ondjaki brilha também nos contos; e se amanhã o medo, livro que saiu pela coleção ponta de lança da língua geral, é um belíssimo conjunto de contos nos quais o autor escolhe tratar do tema que une os contos (o medo) também através de homenagens à vários escritores e músicos brasileiros e portugueses e  intertextualidades. 

Logo no primeiro conto deste livro, A Libélula, a música de Adriana Calcanhoto embala a escrita de uma forma cativante!

"Um som fluido abandonava a casa, roçava na poeira das trepadeiras no jardim, influenciava as mangas e os mamões no seu processo de maturação, arrepiava uma libélula inebriada que ali adormecera, fazia o sol abrandar e chegava ainda forte, ainda nítido, ao ouvido da mulher. Depois disto, um sorriso. (...)" 

Trecho inicial de A Libélula, conto que pertence a coletânea e se amanhã o medo de Ondjaki.
(A música em questão é a linda Sudoeste)

(Para quem quiser saborear um pouquinho mais da escrita de Ondjaki, leia aqui o conto A esquina na íntegra! ;).

Uma das características da escrita de Ondjaki que mais me instigam é sua capacidade de falar de coisas duras, duríssimas, com esse jeito poético - que é agora só dele - meio "moleque"; um jeito que combina um humor leve e meio matreiro com a extrema delicadeza (é bem como um sorriso charmoso e um olhar penetrante no meio de uma lágrima, entendem? ;). Isso, o seu amor por Luanda e o jogo de palavras que ele usa me instigam bastante! Ando querendo ver os desenvolvimentos de sua escrita em outras áreas também, uma vez que Ondjaki escreveu também romances, textos infantis e juvenis; e, ainda, uma tese de mestrado sobre o grande Luandino Vieira. (E com a minha idade, gente! rs rs)  





Obras de Ondjaki para prestar atenção :

Bom dia camaradas - O seu primeiro romance (publicado em 2001).
Avó Dezanove e o segredo soviético - Romance que ganhou o prêmio Jabuti em 2010 na categoria juvenil.
Quantas Madrugadas tem a noite - Porque só com esse título já me ganhou de cara! (Update: Li este livro recentemente e amei - falei sobre ele neste vídeo aqui)
Os da Minha Rua - ganhou o Grande Premio de Conto Camilo Castelo Branco em 2007.
Materiais para a confecção de um espanador de tristezas - Poesia!
dentro de mim faz sul e acto sanguineu - mais poesia! ;)

Os Transparentes - seu último livro publicado (aqui no Brasil foi lançado mês passado pela Companhia da Letras); já estou completamente "louca" para ler este livro! (leia mais sobre o lançamento e sobre o documentário aqui e aqui).


*Texto originalmente publicado pela autora no extinto blog 365 escritores.

domingo, 16 de junho de 2013

As leituras do incrível mês de Maio! ;)


Um pouco tarde como sempre (atrasada é meu nome do meio) venho falar sobre as leituras do mês de maio. Um mês absolutamente incrível na minha relação com a literatura: comprei excelentes livros em várias promoções ( ) e, principalmente, descobri autores e livros muito, muito bons. E foi o mês que li Anna Karênina; um livro fantástico que se tornou um dos livros favoritos da vida.

Antes, porém, de entrar nos comentários das leituras feitas, tenho que falar do novo nome do humilde bloguito. Vocês gostaram?

Há algum tempo que eu queria modificar o título deste espaço para que ele pudesse refletir um pouco mais ao tema que acabei me dedicando e quero seguir debatendo por aqui. Cem Anos de Literatura faz uma homenagem não apenas ao Gabo, mas ao realismo mágico, à literatura latinoamericana (uma das minhas preferidas, fato) e ao caráter atemporal da literatura (porque cem anos é, na realidade, a ausência de limites; cem anos são mil vidas, muitos mundos possíveis e não um tempo realmente mensurável...).  



1. Coração Apertado de Marie Ndiaye

Já quero ler todos os outros livros da Ndiaye: que escrita essa francesa tem e que capacidade de lidar com uma temática tão profunda prendendo o leitor de um modo tão incrível (eu tive sensações físicas fortíssimas lendo esse livro, gente)!
Só não posso falar muito do livro, pois estragaria a experiência. Basta saber que é sobre um casal de professores de meia idade que vive em Bordeaux e que se vê acossado por praticamente todas as pessoas a sua volta sem saber o porquê... Leiam: vale a pena! (ainda que o final tenha me deixado um pouco... humm, não direi, mas compartilho com quem tenha lido o livro nos comentários, ok?) 



2. Daytripper de Fábio Moon e Gabriel Bá:

A única HQ do mês, mas valeu por várias. Inovadora em relação à estrutura e ao fato de ter dois desenhistas. Gostei bastante!



3. A Morte de Ivan Ilitch de Liev Tolstói

Releitura para o Entre Pontos e Vírgulas: post aqui e debate no fórum aqui.

4. A Infância de Jesus de Coetzee

Meu primeiro contato com o escritor; gostei bastante, mas também me senti um tanto estranha com relação ao enredo e à algumas características do livro... Deixo aqui uma resenha bem legal desse livro para quem se interessar: 




5. Fantasmas na biblioteca de Jacques Bonnet

Confissões de um bibliófilo; leitura deliciosa para aficcionados, rs. (No estilo dos livros do Midlin) Bonnet conta um pouco a sua própria trajetória, como organiza sua biblioteca, e tem um ensaio interessantíssimo sobre a relação pessoal do leitor com os personagens e com os escritores... ; )

6. O Escolhido foi você de Miranda July


Que livro incrível! Miranda July me ganhou na sua capacidade de transformar um momento da sua vida pessoal em literatura e em algo novo: o livro é quase um documentário! Agora quero ler mais textos dela com certeza! (E as imagens e pessoas do livro? Demais!)



7. Anna Kariênina de Liev Tolstói

Simplesmente a melhor leitura do mês, do ano! Fiz um vídeo, mas deveria ter feito um post também para o desafio literário... (ainda farei, vocês são minhas testemunhas, rs).

E essas foram as leituras do incrível mês de maio! E vocês: leram muitas coisas boas também?

Beijos!

terça-feira, 21 de maio de 2013

A Morte de Ivan Ilitch - Tolstói (Entre Pontos e Vírgulas)

(O texto abaixo contém spoilers, pois foi preparado para o debate do livro no Fórum Entre Pontos e Vírgulas)

A Morte de Ivan Ilitch, novela publicada por Tolstói em 1886, é um desses textos atemporais, impecáveis e únicos. O próprio título anuncia não só o que há de particular, trata-se de Ivan Ilitch, mas também o tema que é universal e necessário: a morte.

O aspecto que eu mais gostei nessa minha releitura é a profusão de contrastes que Tostói nos traz em uma narrativa tão breve, mas, ao mesmo tempo, com um final tão denso... (E como diz o Paulo Rónai no posfácio dessa edição da 34: que descrição do momento da morte!).

A narrativa nos coloca diante de uma dialética entre o particular e o universal e entre a vida e a morte. Depois de uma descrição seca de uma vida que eu chamaria de opaca (sem vida, cor, sobressaltos), somos arrebatados por uma morte extremamente vívida! E aí é que passamos do particular (do "tipo" que o autor está descrevendo e podemos nos identificar parcialmente ou não) ao universal: todos experimentamos a morte, a proximidade e a necessidade da morte - o que, inevitavelmente, nos faz rever nossas escolhas passadas e nossas finalidades na vida.

Nas minhas reflexões para além do texto fiquei também pensando que tudo contribui para a angústia crescente (do leitor) que se depara com o vazio cada vez maior (e mais insosso) da vida de Ivan Ilitch, para, em seguida, se sentir imerso no fato de como a sua morte (que ele experimenta no momento em que tem a certeza da morte e não apenas na consumação desta!) se torna o um evento radical, solitário e atemorizante. [O que eu quero dizer é que há uma forte união entre o conteúdo/texto e o estilo da escrita que nos faz experimentar esse contraste fortíssimo!]. 

Ivan Ilitch é o protótipo do burguês burocrata. Não tem grandes paixões ou ideais na vida; seus únicos motores são o trabalho (o que envolve a busca de promoções e uma segurança financeira apenas, e não algum tipo de realização pessoal) e sua parca vida social. Sua vida íntima é também marcada pela ausência de fortes desejos e sentimentos: o seu casamento se deu por conveniência social e viveu quase a vida toda uma relação superficial com a esposa e os filhos. Prazer? Apenas no jogo; e nada avassalador, pelo que percebemos.

Como o trecho abaixo ilustra de forma brilhante: a vida toda de Ivan Ilitch é permeada por um cotidiano impessoal e racionalizado, na qual há pouco ou nenhum lugar para afetos e relacionamentos mais profundos e radicais.

A Morte de Ivan Ilitch; editora 34, pág. 33

Os momentos de decepção e tristeza (se é que há algum sentimento mais forte) ficam por conta dos reveses ligados à ascensão profissional e, por conseguinte, à manutenção da sua reputação social.




Eis que a sua própria vida (e o quão "diminuta" ela teria sido) só se torna uma questão quando ele se vê diante da doença sem solução, e quando compreende a imutabilidade da morte iminente!




Continuando com os contrastes: o tratamento demasiado impessoal do médico traz à tona para Ivan Ilitch uma revolta que ele nunca sentiu quando estava "do outro lado"/da burocracia. O tipo de tratamento superficial e distante que recebe do médico, da sua esposa, da filha; tudo isso só reforça a falsidade e a pequenez que ele agora vê na sua antiga vida. 

A todo momento o desespero de Ivan Ilitch só vai aumentando e não vem tanto da dor, mas da experiência da morte, do fim. Tentando reconstituir seu passado vê poucos momentos (a infância e/ou na faculdade talvez) realmente autênticos. 
Outro elemento de contraste é o criado G. que representa a simplicidade da vida (e a tranquilidade da alma) que ele nunca teve e não tem agora diante da morte, do fim de tudo; um "tudo" que ele não consegue ver sentido algum.

Confesso que me deu muito prazer reler essa novela ao mesmo tempo em que leio pela primeira vez outra obra magistral de Tolstói: Anna Kariênina! E isso porque pude observar a mudança grande na escrita e a complexidade deste grande escritor e pensador. Se em Anna eu me envolvo completamente no enredo a partir da vida interior e da riqueza de cada personagem com suas dúvidas, hesitações, escolhas e emoções; em Ivan eu me assusto com o quanto o homem (todos nós) pode despir-se de sua humanidade e transformar a própria vida em mero seguimento de procedimentos burocrático-sociais (e perder-se no meio disso)*.

O que posso dizer é que a morte extremamente vívida de Ivan Ilitch é inesquecível: sei que retornarei à ela não como algo distante, mas como algo muito próximo sempre que a rotinização dos procedimentos cotidianos me separar daquilo que me faz humana e me despir de vida, de propósito, de finalidade... 



*Sei que a comparação é meio descabida: um romance de proporções enormes como Anna e uma novela. Mas o ponto é a mudança na forma do texto, no estilo. É notável e interessantíssimo acompanhar essa transformação da escrita (que tem muito que ver com os propósitos e com a mudança mesmo de Tolstói: a morte se torna cada vez mais um tema e uma realidade que o atormentava muito. Não apenas a morte em si, mas o fato de que ele não conseguia implementar em sua vida pessoal a mudança de vida que ele tanto desejava - a saber, uma vida mais simples, mais próxima da natureza e despida das conveniências sociais!).

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Leituras de um Abril com gosto de inverno...

Abril foi um mês intenso: viajei, sorri, vivi, vi lugares maravilhosos, amei, chorei, sofri, tive medo e me levantei no final do mês como se uma estação inteira tivesse passado... um inverno; porque é no inverno que tradicionalmente as coisas tomam tantos rumos inesperados (na minha vida! ;).
Mas eis que aí, no meio disso tudo, tem a literatura... Ah, a literatura e sua capacidade de nos ajudar nas nossas escolhas diárias, nos nossos momentos de impotência e solidão, nos nossos desesperos e medos mais profundos... na alegria, na tristeza e na esperança...

Sim, MUITA coisa aconteceu, coisas boas, maravilhosas, mas também outras bem difíceis (vida = a gente se vê por aqui! :); mas o que eu vou lembrar - hoje - é dos livros que me acompanharam nessa jornada! Vamos lá? 



1. Garota Exemplar de Gillian Flynn - um livro que não tem nada a ver comigo, fora o seu gênero (suspense). Uma história bem elaborada do ponto de vista do enredo; mas, a meu ver, com personagens extremamente estereotipados e trechos cansativos. Não me seduziu nem um pouco. Primeira escolha errada do ano em termos literários... (Duas estrelas no skoob. Não aparece na foto, pois já troquei - Skoob Plus: amo muito tudo isso!).

2. A Bailarina Fantasma de Socorro Acioli -

Uma belíssima homenagem ao Teatro José Alencar em Fortaleza e a capacidade da literatura em entrelaçar memória, arte e identidade de uma forma única. Gostei demais da edição e das lindas fotos do teatro que tem plena integração com o texto!


3. Quantas Madrugadas tem a noite - Ondjaki

Declarei todo meu amor em um vídeo aqui.

Ondjaki lindo e uma obra com tudo que eu amo na literatura africana: temática social e identitária, bom humor, poesia e intertextualidade.




4. Sobre a Beleza - Zadie Smith

Esse é outro que gerou um vídeo especialíssimo para mim: gostei mesmo muito desse livro e, principalmente, da Zadie Smith. Diálogos e personagens interessantíssimos, atuais e complexos com seus dramas destrinchados através de ótimos diálogos e reflexões. Uma escritora com muito potencial na minha estante (rs).

5. Jubiabá em quadrinhos - Adaptação e arte de Spacca

Jorge Amado em quadrinhos!
Só por isso já amei... sério! (rs).

Mas o traço do Spacca me surpreendeu e fiquei horas sem conseguir largar. Emocionante!

Demais essa iniciativa de adaptar nossos grandes escritores para quadrinhos: vida longa a ideia e a execução deste projeto. ;)

6. MAUS - Art Spiegelman


Maus é absolutamente imperdível! Spiegelman utiliza vários recursos para contar a história de sobrevivência do seu pai: Vladek Spiegelman.

Desde o uso do preto e branco, dos animais representando cada nação até o estilo que combina conversas com o seu pai no presente (em encontros cheios de significado) e a história de vida do mesmo com sua mulher na Alemanha Nazista; tudo colabora para uma forma original e singela de expressar aquilo que não tem como ser apreendido na sua totalidade de quase nenhuma forma. Texto, desenho, cores e representações se combinam para narrar a vida de Vladek e a experiência dos judeus sobreviventes. Porém, o mais interessante a meu ver, é a forma como  este quadrinho combina elementos biográficos da vida do seu pai com elementos auto-biográficos a respeito da relação do próprio Spiegelman com o seu pai, com a perda de sua mãe e com o holocausto.
Ou seja: tanto a forma como seu pai sobreviveu, como a sua própria (do escritor) relação conturbada com tudo isso é o grande tema de Maus. Uma HQ merecedora do prêmio Pulitzer, certamente!

7. Olhos de Cão Azul - Gabriel García Márquez

Livro de abril do fórum: debate aqui.

Este livro de contos do Gabo é bem denso e que foi uma leitura difícil para mim emocionalmente neste mês. A temática que perpassa os textos é a da morte e os contos foram escritos no início da carreira do grande escritor colombiano. Mas muitos possuem já diversos elementos que o consagraram; características como a força das sensações nas descrições, a inclusão do fantástico no cotidiano e uma linguagem única que nos faz vivenciar os sentimentos e angústias dos personagens.
Creio que essa leitura foi forte também por conta do meu momento e das lembranças que me fez reviver... Gabo e seu poder único de mexer profundamente comigo! Excelente: 5 estrelas!

Abraços, e que o outono seja bom!

Março em livros

(Sim, eu sei que já estamos em MAIO, rs. Mas como deixar de registrar por aqui as ótimas leituras de março? E de abril (essas entram no ar amanhã! ;)




Março foi outro ótimo mês e, relação as leituras: 10 livros terminados! =D

Estou gostando muito dessa imersão na leitura e de poder ler cada vez mais tanto o que eu quero profissionalmente (que não está contabilizado aí porque são artigos e pedaços de livros), quando o que me traz prazer e crescimento pessoal em outro sentido - a literatura!









1. A Confissão da leoa - Mia Couto

Mais um livro do Mia Couto que mexeu comigo. Dentre os que eu já li do autor (O último voô do flamingo, Terra Sonâmbula e O último pé da sereia), este último não é o preferido, mas foi uma leitura muito interessante.

Mais uma vez Mia brilha em vários aspectos: o entrelaçamento da história social e pessoal, a força dos mitos na vida das pessoas, a busca de identidade em meio aos diversos elementos sociais e familiares que nos influenciam para além do que podemos controlar, a linguagem poética única! Um belo livro com um personagem masculino que virou um dos meus preferidos do escritor: Arcanjo Baleiro.

2. As virgens Suicidas - Jeffrey Eugenides

Um livro que me surpreendeu positivamente e muito! Jeffrey Eugenides nos enche de melancolia em uma história com uma temática de morte na adolescência; mas que fala muito mais da morte e da incapacidade de entender um tipo de vida, uma certa forma de estar no mundo que não existe mais.




3. O Colecionador - John Fowles

Esse excelente livro do Fowles foi debatido no Fórum: veja aqui.

4. O sentido de um fim - Julian Barnes

Outro que foi debatido no fórum e que, confesso, eu não aproveitei tanto... : (
Mas o debate foi muito rico justamente por conta das visões e sensações tão distintas que esse livro nos provocou! Se você já leu, confira o debate no fórum entre pontos e vírgulas









5. O Chamado - Jack London

Jack London me conquistou com a sua escrita e a história de Buck... mas sobre este singelo livro eu falo em um post separado (para o desafio literário!) em breve.

6. Maquiavel - Quentin Skinner

Eu gosto muito do Skinner e não conhecia esse pequeno grande livro de interpretação do tão mal compreendido Maquiavel. Vale muito a pena para quem quer ver outra interpretação do florentino para além do lado maquiavélico difundido pelo mundo todo...  ;)

7. A Cor do invisível - Mario Quintana 

Poesia todo dia agora virou meu mantra. Gostei especialmente desta coletânea comparada com as outras que tenho dele: poemas que exaltam a delicadeza e a simplicidade da vida, do amor, do cotidiano...
Mario Quintana para sempre!

8. O livro dos abraços - Eduardo Galeano

Um livro que fala dos abraços dados, dos não dados e dos imaginados; um livro que fala da vida, da morte, dos encontros e da América latina, da história e da memória, das cidades e dos homens. Textos que celebram uma forma de viver para além das circunstâncias, para além dos retornos impossíveis que anunciam pequenas mortes. Um livro belo e único: merece ser lido e, mais importante, sentido! Certamente uma das melhores leituras do ano! ;)






9. Um livro por dia. Minha temporada parisiense na Shakespeare and Company - Jeremy Mercer

Jeremy Mercer conta com muita lucidez a sua vida na Shakeaspeare and Company e nos delicia com a história do homem por trás dessa ideia e dos meandros da vida nessa livraria única na linda Paris! E o mais impactante é que a escrita de Mercer nos proporciona uma pequena imersão neste lugar único, ou melhor, na vida do próprio autor na Shakespeare and Company: um lugar no qual o tempo se suaviza e a vida ganha outro sentido... 

10. E foram todos para Paris - Sérgio Augusto

Um guia de viagem da cidade luz com ótimas indicações para ir a todos os pontos importantes onde viveram-e passaram (debateram, brigaram - rs - beberam café, vinho e etc) vários dos grandes escritores e artistas que passaram por Paris da década de 20 a 40... Com ótimo texto, fotos e mapas: imperdível para qualquer amante de literatura que vai para Paris! <3>

Beijos!