sexta-feira, 9 de maio de 2014

A garota silenciosa de Tess Gerritsen

A garota silenciosa é o nono livro da série policial escrita por Tess Gerritsen que tem como protagonistas Jane Rizzoli, a policial, e Maura Isles, a médica legista. Já falei aqui da minha relação com a escritora e de como sou fanática por esta série: daí que a cada livro novo corro para ler! ;)

Posso dizer que fico feliz de ter mais motivos ainda para acompanhar os livros de Tess pela sua capacidade de sempre criar algo novo: Gélido, o oitavo livro da série, foi bem surpreendente e diferente do que a autora vinha fazendo.

Em A garota silenciosa novamente vemos Gerritsen renovar a série com uma história que é ambientada no bairro de Chinatown, traz vários elementos da mitologia chinesa, possui um ar mais sombrio e uma dose forte de suspense em vários momentos. Ah, sim, e é protagonizada por várias mulheres: outro elemento das histórias de Gerritsen que eu gosto!
Nos seus diversos romances policiais, a autora chama atenção para dramas sociais muito ligados a diversas formas de sujeição e exploração das mulheres e às distintas formas de lidar com estas questões.

A trama gira em torno de um assassinato ocorrido no bairro de Chinatown que parece ter sido feito com um tipo muito raro de espada, pois a pessoa teve decepada sua mão de uma forma muito precisa. Rizzoli assume o caso e Maura a auxilia até certo ponto; mas o foco deste volume é Rizzoli e a participação da legista é um tanto acessória neste volume. Este foi, aliás, um dos motivos que me levou a não dar 5 estrelas para o livro (dei quatro!): no início parece que nossas duas protagonistas participarão ativamente do caso, mas Maura Isles acaba saindo de cena. No plano da vida pessoal das protagonistas ocorre um abalo na relação das duas, pois Maura depõe contra a atuação violenta de um policial e Rizzoli, embora não pratique este tipo de violência e nem seja favorável,  acaba questionando o rigor ético de Isles.

O enredo combina a investigação sobre este misterioso crime e o envolvimento de Rizzoli e sua equipe em outros crimes ocorridos em Chinatown no passado. E aspectos ligados a mitologia chinesa e às artes marciais vão permeando várias descobertas.

Gostei muito do fato de que a trama se desenrola em torno de vários crimes e a ligação entre os mesmos esconde questões que aparecem no início da trama. O desfecho é bem interessante e com uma boa dose de ação e tensão. (*** Alerta de pequeno spoiler - visão sobre o final do livro: adoro vários finais dos livros desta série; este é mais interessante não pelo aspecto da surpresa - creio que este desfecho tem previsibilidade de um lado e grata surpresa do outro, rs -, mas pelo modo como Tess liga o final a uma mudança interessante em Rizzoli).

Falei um pouco mais desta leitura (e de outros romances policiais lidos em abril) no vídeo abaixo:



Abraços!


*Livro solicitado na parceria com o Grupo Editorial Record.

domingo, 20 de abril de 2014

Do meu amor por Gabo e de alguns demônios

"Ao amanhecer de quinta-feira pararam os cheiros, perdeu-se o sentido das distâncias. A noção do tempo (...) desapareceu por completo. Então não houve quinta-feira"
(Do conto Isabel vendo chover em Macondo)


Desde a triste notícia da morte do Gabo há três dias várias imagens, sentimentos e fantasmas povoam minha mente… Mesmo sabendo que no meu coração ele viverá para sempre, não pude deixar de me sentir tão pequena e só como eu era antes de conhecê-lo... O tempo parou e eu voltei a encontrar não apenas meus fantasmas, mas a dor de não poder tê-los ao meu lado.

Cresci admirando os títulos e capas dos livros de Gabriel García Marquez na estante dos meus pais. Lembro que O outono do patriarca era um dos que mais me intrigava; pelo título e pela capa. Meus pais e seus amigos falavam de vários escritores latino-americanos, mas uma coisa que ficou no meu imaginário era como o nome Gabriel García Marquez era evocado em alguns momentos como se ele fosse parte da família; com intimidade, reconhecimento e afeição. Gabo era, desde então, um ser mitológico para mim: sua obra ainda não tinha me tocado, mas a sua figura e o que ele representava para tantos já fazia parte da minha história. Lembro vagamente de ter começado a leitura de O outono e de Crônica de uma morte anunciada (outro título que me intrigava) e não ter concluído.
  
Com uns 15 ou 16 anos, finalmente conheci a escrita do Gabo: li Cem anos de solidão e foi como uma revolução na minha vida. Como leitora eu descobria novas possibilidades da escrita até então completamente desconhecidas. Como era possível inventar com a palavra um mundo tão real e irreal ao mesmo  tempo? E com personagens tão incríveis que eu sentia que conhecia antes mesmo de ler sobre? Como pessoa eu encontrava alguém que traduzia de uma forma tão bela e poética sentimentos que eu não sabia nomear e uma sensação de pertencimento única se formava dentro de mim. E, principalmente, com Cem anos a realidade de uma literatura latino-americana se tornava incontestável, tanto quanto a vontade de que com a minha vida eu pudesse compreender melhor e também falar ou fazer algo por essa minha América Latina querida. Escolhi as ciências sociais e, no segundo semestre da faculdade eu já sabia que não poderia fazer mais nada da vida…eu tinha um lugar no mundo e isso é algo que nos confere um tipo único de solidão e, ao mesmo tempo, aquela busca contínua que nos aprisiona e que, para mim, só Gabo sabia traduzir e aplacar.

Antes disso, eu era uma pessoa entre dois mundos: minha identidade se dividia entre a origem da minha mãe, hondureña, e a do meu pai, brasileiro, e o amor de ambos pela história, literatura e música latino-americana. Quando eu era pequena, vivia entre o Brasil e Honduras e, em um certo sentido, os dois países representavam realidades tão opostas, que era difícil conciliá-las na minha cabeça e no meu coração. De um lado o espanhol, a família numerosa, religiosa e festeira, a desigualdade social extrema e um país de proporções geográficas pequenas, mas de grandes caudilhos e absurdos sociais. De outro o Brasil, bem mais modernizado, com a família pequena e silenciosa do meu pai e com uma história tão diferente - ainda que tão parecida em outros aspectos -.
O que mais diferenciava o Brasil de Honduras além das proporções, da ausência de minha imensa família e da comida (aqui não tínhamos tortia e o café da manhã era, portanto, sempre mais chato), era a língua… O português nos diferenciava não só de Honduras, mas dessa identidade coletiva que era a de todos os outros países latinos. Os amigos chilenos, argentinos, nicaraguenses e do Panamá: todos falavam espanhol! Nós éramos, na minha cabeça quando pequena, os diferentes e o português era uma língua que separava; e o Brasil esse país imenso e belo que todos amavam, porém distante, uma distância que o tornava quase irreal.

Eu fui alfabetizada em espanhol para, em seguida, voltar ao Brasil. Apesar de falar bem o espanhol ("sem sotaque, nem parece que você é brasileira!"), lembro que meus primos riam de mim quando eu falava democracia com o "acento" errado do português e também me zoavam dizendo que eu inventava palavras. Enquanto isso, por aqui, eu vivia sendo criticada nas provas e textos pois escrevia felis com "s", entre outros absurdos lingüísticos e existenciais.

Eu pensava em espanhol quando ia para Honduras e esquecia completamente o português (ao menos era assim que eu sentia); mas, quando voltava para cá eu sentia que minha Honduras, bem como a nossa latinidade, ficavam imensamente mais distantes por conta da língua e da inexistência de uma afirmação histórico-política de igualdade entre nós: quase ninguém que eu conhecia sabia onde era Honduras! Minha mãe ser hondureña era sempre motivo de caras estranhas, risinhos e até xingamentos (sim, adolescentes são seres maldosos! :).

O maior dos "absurdos" para mim era como podíamos ser tão próximos e tão distantes de Honduras, bem como da América Latina como um todo em certo sentido… O Brasil se bastava a si mesmo, mas eu e minha família não. Estávamos sempre com saudade de alguém ou de algo, real e imaginado. Desde muito cedo eu conhecia o que era nostalgia, ainda que não soubesse escrever corretamente a palavra em nenhuma língua. 

Quando eu tinha 8 anos meus pais nos mandaram para Honduras para morar com meus avós (eu e minha irmã dois anos mais velha). Eles estavam se separando aqui e acharam que, estando lá, experimentaríamos menos essa dor. A ironia é que meus avós hondureños se separaram enquanto estávamos morando com eles! :(
A casa dos meus avós era imensa (na minha mente, claro); era o verdadeiro centro do mundo familiar, o lugar de encontro semanal, de resolução dos problemas mais graves e era também o contexto que acolhia rejeitados como eu e minha irmã. Também frequentávamos bastante as casas das minhas bisavós, que eram como o paraíso para mim: muita coisa podia acontecer nestes lugares fantásticos e era com um imenso pesar que eu ia embora de lá. A casa da mãe da minha avó, minha bisavó Mercedes (da qual eu herdei meu nome), tinha um jardim interno e nela moravam várias tias mais velhas e solteiras que nos enchiam de doces e histórias; muitas delas eram de familiares e cheias de segredos e revelações - era melhor que novela! rs. Outra coisa que lembro com gosto era como nós encontrávamos a cada dia uma passagem secreta escondida, um recanto perdido da casa e o mundo de objetos velhos incríveis que minha bisavó guardava. (Minha avó também faz isso até hoje: na casa dela podemos encontrar objetos com mais de 30/40 anos!). 

Minha outra bisavó, abuelita Moncha, tinha uma casa igualmente surpreendente, pois ela guardava muitas coisas em vidros espalhados em prateleiras pelos cômodos da casa toda - o que era um tanto assustador, confesso. Além disso, ela tinha uma cozinha incrível que era meio que aberta para o quintal e cozinhava o dia inteiro em um forno de barro enquanto nós nos sentávamos e comíamos em bancos de madeira com três pés. Outra lembrança forte que tenho da minha bisavó Moncha é que ela viveu até quase os 100 anos e fazia TUDO sozinha. 

Quando eu tinha 15 anos fui para Honduras visitar minha mãe que estava morando lá. No dia seguinte estávamos na casa da minha bisavó Moncha. Ela estava doente, muito mal mesmo e não podíamos fazer mais nada: ela queria morrer em casa. Minha mãe, que é médica, ficava a maior parte do tempo com ela (quando não estava brigando com todo mundo na micro sala ao lado porque era preciso fazer algo!). No meio da noite, saí com minha mãe e minha avó para buscar comida; demoramos uns 15 minutos. Quando voltamos minha bisa estava morta. Creio que meu maior choque foi com o fato de ser tão repentino (eu não "sabia" exatamente que estávamos ali esperando a sua morte, afinal) e com o fato de que ela parecia tão menor e mais serena quando morta. No dia seguinte meu avô chorou alto feito criança durante todo o enterro como eu nunca vira; ele era o nosso coronel, sempre impassível, forte e duro, e estava ali se despedindo de sua mãe completamente destroçado! Essas duas imagens ficaram durante muito tempo comigo… 

A morte de Úrsula Iguarán em Cem anos de solidão é uma das passagens literárias mais fortes que guardo na memória (não vou contar tudo, pois alguém pode estar lendo este texto sem ter lido o livro). Úrsula é até hoje uma das minhas personagens preferidas do livro: sua força, determinação, o modo como cuidava de toda a família e como suportou (e até apoiou em certo sentido) todas as ideias loucas de José Arcádio Buendía e as guerras do coronel Aureliano Buendía (outro dos meus personagens preferidos ;)… Úrsula sintetizava todas as grandes mulheres da minha família: minhas bisavós, minha avó e minha mãe. Além disso, Úrsula, Amaranta, Rebecca, Pilar (e até mesmo a Fernanda del Carpio!) eram todas mulheres muito latino-americanas. [E o que dizer de Macondo? Macondo era a minha casa, a fusão das casas das minhas avós e bisas, de Honduras e da América Latina... Macondo era aqui e eu nunca mais deixei de me sentir próxima dessa cidade mítica, solitária e maravilhosa].

Eu comecei a ser devoradora de livros quando pequena; por volta dos 10 anos, quando voltei para o Brasil, lembro de ler tudo que me caía nas mãos (especialmente suspenses!) e com 12 lembro de frequentar a biblioteca do Campo São Bento toda semana. A literatura foi fundamental para mim nesse período de construção da minha identidade por vários motivos: me ajudou a lidar com a distância e a falta que sentia da minha família, me abriu a mente para a enormidade do mundo, me ajudou a superar minhas próprias dores muito ligadas nessa época à separação dos meus pais e a impotência que eu sentia em lidar com isso... e até me ajudou a gostar do português. ;)

Mas foi com Gabo, e com Cem anos, que eu pude vivenciar e perceber a grandiosidade dessa fusão entre vida e literatura. Gabo falava de um modo tão belo de algo que era tão real e, ao mesmo tempo tão absurdo, tão doloroso… Eram sentimentos que eu entendia, tinha vivenciado, que falavam de mim e da minha história também. E eram, agora, parte de algo que eu compreendia como um "nós", algo que me relacionava de forma definitiva a minha identidade latino-americana; que eu antes não enxergava com essa dimensão maior.

Os desmandos e absurdos cometidos pelos homens no poder, a inutilidade das guerras, a ausência de diferenças ideológicas no plano da ação/do poder e a invisibilidade dos trabalhadores: tudo isso também estava lá e nos unia! A dialética que opunha Brasil e Honduras no meu imaginário se resolvia na reconstrução da história social da América Latina que eu agora queria estudar. 

O contato com a obra de Gabo (re)significou a minha história e minhas escolhas. Por isso este texto não poderia deixar de ser tão pessoal. Por mais que o grande escritor de Aracataca tenha vários outros lugares na minha experiência de leitora, hoje, com o coração apertado, lembro de como ele foi fundamental no momento que a morte se tornou presente na minha vida,  no momento que a solidão inescapável que todos nós vivemos se fez mais real, mas também na construção do ideal que me permitiu acreditar: o de uma América Latina mais justa e igual.

Gabo nos deixou na última quinta-feira 17 de abril de 2014. Entretanto, continuará vivendo para sempre no coração de seus leitores por todo o mundo.

Hasta luego, maestro! Y gracias por todo

domingo, 6 de abril de 2014

Quem sabe um dia de Lauren Grahan

Quem sabe um dia, o primeiro livro da atriz Lauren Graham (a nossa eterna Lorelai de Gilmore Girls! ;), é um livro leve e divertido.

Acompanhamos a trajetória de Franny Banks em Nova York no final do prazo de três anos que ela mesma se impôs para se tornar uma atriz em ascensão (na Broadway). Restam seis meses para lutar pelo grande desejo de sua vida, mas até agora ela conseguiu apenas fazer um comercial de casaco de Natal, trabalhar como garçonete e fazer um curso de teatro famoso. No mais, divide um apartamento no Brooklin com sua grande amiga Jane, que trabalha como assistente de produção em um filme, e Dan, que aspira ser roteirista de filmes de ficção científica. Tudo gira então em torno da indústria da TV e do cinema e do quanto é difícil batalhar por uma entrada neste mundo. Franny aposta suas fichas no curso de teatro que está fazendo e que termina com uma grande apresentação na qual comparecem recrutadores/ "olheiros" das grandes agências de atores de Nova York.

Como nas boas comédias românticas do cinema, os melhores momentos da trama se passam nas peripécias pelas quais Franny passa em sua caminhada e na convivência e nas conversas da personagem principal com seus colegas de apartamento. ;)

Franny tem 26 anos; perdeu a mãe quando era pequena e foi criada pelo pai, um professor de literatura que vive em outra cidade e quase só consegue conversar com a filha pelo telefone. Um dos pontos altos do livro para mim foi justamente a relação de Franny com seu pai e as conversas dos dois. Na maior parte das vezes o pai de Franny, não conseguindo falar com ela, deixa recados na secretária eletrônica; mensagens que, aliás, pautam a passagem do tempo e conferem uma boa dinâmica à história. Pena só que a autora não segura o ritmo (neste e em outros pontos) até o final.

A relação da personagem com a secretária eletrônica, aliás, foi uma das boas ideias de Lauren Grahan. O livro se passa em 1995 e Franny não tem um telefone celular; a secretária é seu meio de relacionamento com o mundo e, na maior parte do livro, o uso deste recurso confere dinamismo e graça ao enredo. Franny está sempre esperando um recado de alguém da mesma forma que parece estar esperando ser aprovada (empregada) por alguém como atriz, como mulher, como pessoa...

Apesar de ser o mote central, achei que a insegurança em relação à sua atuação não é tão bem  explorada no livro. Ao mesmo tempo em que acompanhamos vários momentos de descoberta da personagem de seu potencial como atriz, a autora explora a insegurança de Franny com relação ao seu corpo, sua beleza, seu cabelo… Embora estas questões sejam elaboradas também com relação à insegurança geral da personagem sobre si mesma de forma interessante em certas partes, achei que foi um pouco clichê demais e forçada a obsessão de Franny com dietas (confesso que implico com o excesso dessa temática...).
Minha impressão geral foi a de que o livro é divertido e interessante, mas ganharia muito se fosse mais enxuto em várias partes do enredo e também na construção da personagem.

Assim, ao mesmo tempo que gostei do início do desenvolvimento da personagem com as várias tiradas através da secretária eletrônica e das conversas de Franny com Dan, duas coisas me incomodaram mais do meio para o fim do livro. A primeira é que Franny não parecia ter 26 anos! Em vários momentos, senti como se ela fosse uma adolescente e como se houvesse um certo descompasso entre uma das características da personagem (a insistência em batalhar pelo que queria) e as demais… (Para mim a obsessão com o seu peso não "colou", sabem como?). Além disso, faltou sutileza a autora em alguns momentos: estendeu demais certas passagens e explicou muito para seu leitor outras ótimas ideias que teve (como a do nome da personagem dada por sua mãe que adorava Salinger).

Enfim, gostei do tom leve e divertido da leitura, especialmente no início e no finalzinho, e de alguns insights de Lauren Grahan, mas acho que o livro ganharia muito se a autora se afastasse de alguns clichês e tornasse mais dinâmico também o "miolo" da trama.


OBS: Ganhei "Quem sabe um dia" de cortesia da Editora Record no evento Piquenique da Galera Record. ;)

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Retrospectiva literária 2013

A linda da Lua fez uma Retrospectiva Literária que eu achei muito legal. Então vou aproveitar a ideia dela como se fosse uma tag e responder por aqui também. ;)

Os melhores livros (lidos) de 2013

Respondi em vídeo! E escolhi um montão, ahaha!  ;) 





Os piores

Fiquei feliz em ter dificuldade de encontrar resposta para esta categoria. A verdade é que praticamente só tive leituras excelentes, muito boas e boas em 2013! ;)

Mas vou citar uma que eu não curti, apesar de achar o livro bom e interessante em alguns aspectos: Garota Exemplar. Os personagens me irritaram demais, demais, DEMAIS... Ahaha!

O enredo é muito bom e alguma coisa do debate por traz da construção dos personagens também (apesar dos clichês), mas eu não consegui gostar... mesmo. Terminei de ler, pois é um livro que não dá para largar. Ou seja: li com raiva quase, rs.




 Clássicos do Ano

Os grandes clássicos do (meu) ano foram Anna Kariênina e Crime e castigo. Foi um ano de grandes russos e queria ter lido muitos livros mais do Tolstói e do Dostoievski: escritores apaixonantes e que entraram de vez para minha vida. O plano agora é ler ao menos um livro de cada um deles por ano. ;)

Mas eu li muitos livros que considero clássicos em 2013: Laranja Mecânica, A morte de Ivan Ilitch, As Meninas, Vidas Secas, Tenda dos Milagres, O último dia de um condenado, Na colonia Penal, Maus (clássico das graphic novels), Chamado Selvagem. Que venham mais em 2014!


Gostei (mas não era o momento certo)

Nessa categoria entram dois livros que abandonei a leitura temporariamente apesar de estar gostando; coisa que me dá um mau humos terrível (haha!).

O primeiro é Notre Dame de Paris do Victor Hugo. Creio que li uns 60% do livro e estava aproveitando muito a escrita e as descrições do VH. Parei, pois realmente não era o momento certo; estava com muito trabalho na época e demorava horrores para ler umas dez páginas... Aí acabei "brochando" e resolvi salvar este livro para um momento melhor.

O segundo foi a biografia do Dênis Moraes sobre o Graciliano Ramos e o motivo foi idêntico. (Mas tenho que confessar que acontece comigo uma espécie de "maldição da biografia", sabem como? Tenho ao menos umas três que li pela metade, mesmo gostando muito da leitura... acho isso estranhíssimo. É mais do que Murphy, gente, já é quase uma sina, rs rs).


Gostei, mas esperava mais

O sentido de um fim do Julian Barnes certamente entra na categoria de livros que eu não consegui me envolver, apesar de saber que o livro é bom... E foi bem interessante ver a diferença de perspectivas sobre este livro lá no fórum: teve gente que adorou e teve gente que odiou. Eu, neste caso, fiquei no meio do caminho: gostei, mas esperava muito mais.

Outra leitura que não atendeu bem às minhas expectativas (e que, coincidentemente, também foi debatido no fórum) foi o livro do Amado: Tenda dos Milagres. Eu esperava que ele me arrebatasse, que a leitura fosse extremamente prazerosa, que os personagens fossem carismáticos e interessantes, que o enredo me fizesse rir e refletir tanto como os outros romances de JA que eu tanto gosto. Mas a verdade é que eu achei o enredo interessante, mas não tão bem executado. Achei Pedro Archanjo um personagem fantástico, mas não os demais do livro. A temática é ótima e Amado faz uma crítica muito interessante, mas, como romance, não foi o 5 (excelente) que eu esperava.


Pensei que is ser 3 estrelas, foi 4

Virgens suicidas foi um livro que me surpreendeu muito, pois eu não esperava gostar tanto. Fico até com muita pena que ele não tenha entrado nas 10 melhores leituras do ano, pois realmente é um livro incrível!

Jeffrey Eugenides cria uma atmosfera única com a sua escrita que vai nos envolvendo e não conseguimos largar o livro! Logo no início somos apresentadas ao mistério que ronda as irmãs Lisbon e ficamos sabendo que todas as cinco irmãs se suicidaram em momentos distintos. O que poderia ser uma trama sobre um drama familiar é, na verdade, uma longa reflexão sobre a imagem que construímos dos outros e as pressões na adolescência e na vida "comunitária" em uma cidade (relativamente) pequena americana da década de 80/90... Uma das coisas mais envolventes é o "narrador coletivo" que é formado por um grupo de meninos (homens) que narra a história de como eram fascinados pelas meninas Lisbon e de sua tentativa de dar um sentido à atitude delas de desistir de viver. Recomendo muito a leitura especialmente a pessoas melancólicas (como eu).

E esse foi um dos raros casos em que achei a adaptação cinematográfica tão boa quanto o livro; feito raro conduzido por Sofia Coppola. Vale a pena a dobradinha! ;)

Outro livro que eu poderia citar como uma grande surpresa foi Mar Azul, da paloma Vidal. Um achado mesmo, gostei muito!

Pensei que ia ser 5 estrelas, foi 4

Nessa categoria eu citaria novamente Tenda dos Milagres; mas acho que minha expectativa com relação à este livro (tido pelo próprio Jorge Amado como o melhor dos que escreveu) acabou atrapalhando também.


domingo, 12 de janeiro de 2014

Maratona Literária 2.0: minha meta!

E 2014 começa com mais uma maratona, yey! (já que não corro, as "maratonas" literárias me permitem dar vazão a sede de aventuras e desafios que há em mim, rs).

Dessa vez, estou participando da maratona organizada pelo blog Café com Blá Blá Blá (e outros). Gostei porque as regras são bem simples e cada participante estipula a sua meta! A maratona ocorrerá a partir de amanhã 13/01 até o dia 19/01 e a proposta é que cada um possa então ler mais que o habitual e, assim, estimular e celebrar a leitura. ;)

Todas as informações, regras e como participar (tem que se inscrever!) nos links abaixo:
Blog Café com Blá Blá Blá: http://www.cafecomblablabla.com.br/faq-maratona-literaria/
Face: https://www.facebook.com/MaratonaLiteraria?fref=ts

E agora os livros que selecionei:


Um policial, um romance aclamado, um escritor que quero MUITO conhecer (Naipaul) e uma HQ (mangá, na verdade, rs). Quatro livros; uma semana. E vamos que vamos! (kkk)


1. Um policial (por que eu amo e pq leio mais rápido, haha!)

"A fera interior" dos irmãos Lotte e Soren Hammer é uma trama policial que envolve pedofilia e política: ansiosa, ainda mais que amei "Vestido de Noivo" da mesma coleção da Vertigo... ;)

2. Um mangá

"Gen pés descalços" - Há algum tempo estou com este aclamado mangá aqui em casa. Indicação do super Kalebe (Confira AQUI). Difícil vai ser não continuar com a série, pois parece ser muito, muito bom! ;)



3. Liberdade de Jonathan Frazen - livro que está encalhado na minha estante há uns dois anos... (coisa feia!). Aproveitei que os espanadores o escolheram como livro do mês no Leituras compartilhadas e vou encarar o calhamaço de 600 páginas! Uhuuuuu! (Wish Me Luck! ;)

4. Num Estado livre do Naipaul: vencedor do booker prize de 1971: ótimo livro (acredito) para conhecer o escritor! Estou querendo ler desde o início de dezembro... E essa capa linda?! rs rs

Quem quiser acompanhar atualizações diárias sobre a maratona é só me seguir no face e no instagram (amo!). E para acompanhar os demais participantes vejam a página do face da Maratona Literária 2.0 (link no começo deste post).

Beijos e boa sorte para todos nós!


Facebook: https://www.facebook.com/cemanosdeliteratura
Instagram: @mercedesolhosverdes

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

2X Irã: Lendo Lolita em Teerã e Filhos do Jacarandá

Um romance e um livro de não ficção; duas mulheres unidas pela nacionalidade, por terem escolhido sair de seu país e por escolherem a escrita como forma de dar novo sentido à suas experiências de vida.

Em comum não apenas o período abordado (o Irã pós revolução -1979- até os dias atuais), mas a capacidade e necessidade de transformar o real em experiência literária.

Lendo Lolita em Teerã

O livro de memórias de Azar Nafisi é simplesmente apaixonante! De forma não linear, a autora relembra seu retorno ao Irã em 1979 após a conclusão de seu doutorado em literatura nos EUA, a luta e decepção com os rumos políticos e sociais de seu país e a forma como a literatura permeou sua vida em Teerã; nas universidades que lecionou e nas relações que estabeleceu com suas alunas até 1997, quando decidiu sair do seu país de vez.

Um livro de não-ficção que nos faz entrar na vida da escritora e de suas alunas de forma  intensa e muito bonita também. Parece que estamos ouvindo a autora nos contando seus sonhos, suas emoções e seu amor pelos livros. Em um dado momento eu me sentia na sala de Azar Nafisi junto com Mashid, Manna, Azin, Mitra, Sanaz, Yassi, Nassrin! ;)

As memórias de Nafisi também nos aproximam de forma mais ampla da vida das mulheres no Irã pós revolução de 1979. O relato é rico não apenas em história social, mas por sua crítica literária e pela memória que denuncia a vida em um regime totalitário. A história de vida da autora e de suas alunas é lembrada através dos livros que permearam cada momento vivido e que tornaram possível superar e dar novo significado à vivência permeada de violência, medo e repressão.

O livro é dividido em quatro partes: Lolita, Gatsby, James e Austen.

No início, Nafisi nos conta sobre os encontros do grupo de alunas que reunia secretamente em sua casa para ler e debater obras censuradas pelo regime por volta de 1993 (como Lolita). O grupo se forma depois de Nafisi ter saído da universidade e deixado de lecionar (o que ela contará depois em outras partes do livro).

O amor de Nafisi por Nabokov é contagiante; mas o que ela faz é uma análise de como aspectos da sua literatura tem relação com o que ela e suas alunas viviam em Teerã... E assim em cada parte a autora explora essa ligação entre suas memórias pessoais,  os acontecimentos sociais e políticos e a literatura (em especial a inglesa e norte americana, mas em um sentido mais amplo também).

Difícil dizer qual parte do livro é mais interessante; mas ouso dizer que a terceira parte me tocou de modo especial... Nafisi está contando nessa parte o momento da guerra Irã e Iraque e sua referência é Henry James. O paralelo entre as reflexões que o escritor fez sobre a primeira guerra e como ela o transformou e o olhar de Nafisi sobre o Irã é muito interessante e inspirador...

Um livro verdadeiramente imperdível para os amantes de literatura, sociologia e história!

Filhos do Jacarandá

No seu livro de estréia, Sahar Delijani constrói um romance fragmentado inspirada na vivência de seus familiares na resistência no Irã durante três décadas: de 1983 a 2011.

O desenrolar do enredo nos permite conhecer os dramas de várias gerações com suas diferentes vivências e percepções: os que viveram a resistência e foram presos, torturados e mortos; os seus filhos (que muitas vezes foram morar fora do Irã depois), e também os pais daqueles que eram jovens em 1983 e que cuidaram dos netos que ficaram longe dos pais.

O primeiro capítulo, por exemplo, nos apresenta a história de Azari que teve sua filha Neda em 1983 na prisão de Teerã. O que me impressionou neste capítulo foi como a escrita de Delijani, que é curta, seca e com momentos de lirismo, me fez entrar integralmente na vivência e nos sentimentos de Azari. Um primeiro capítulo muito forte e belo!

Entretanto, ao progredir na leitura não me senti da mesma forma; a estrutura narrativa escolhida por Delijani, fragmentada em vários aspectos, vai afastando o leitor dos personagens, em vez de aproximar. Há, eu diria, uma cisão no livro que faz alusão à forma muito diferente com a qual as distintas gerações experimentaram a violência extrema e o regime totalitário. Apesar de ficar clara a proposta de Delijani, não conseguimos nos envolver igualmente em todos os dramas: parece que faltou corpo ao romance e desenvolvimento dos personagens.

A minha leitura foi muito marcada pelo fato de ter terminado de ler o livros de memórias de Azar Nafisi e estar envolvida em toda a história do Irã nesse período; o que foi muito bom. Porém, do meio para o fim da leitura eu fui me afastando daquela sensação que Delijani me deixou no início de seu texto; a de conjugar força e beleza em sua escrita.

Um dos momentos que mais gostei do livro é a descrição da lembrança de uma das passeatas que ficaram conhecidas como "protestos silenciosos":

"(XXX) se lembra de ver as imagens de um imenso mar de gente andando em silêncio por uma larga ponte. Num silêncio tão grande que ela achou que podia ouvir o som das batidas dos corações. Havia mulheres de véu, homens com lenços verdes amarrados na testa, jovens e velhos, passando diante do olho perplexo da câmera. Uma comprida bandeira verde flutuava acima de todos, erguida pela multidão. Depois de alguns instantes, um trovão irrompeu quando os manifestantes quebraram o silêncio batendo palmas em uníssono. Houve risos quando estranhos se uniram àquela explosão entusiasmada. Logo as palmas ganharam impulso, jorrando da tela para dentro da sala, como pingos de chuva tamborilando no telhado" (pág. 211).

Me arrepiou... 

Por último devo dizer que achei belíssima a capa e a edição de Filhos do Jacarandá. 

Em vários momentos da leitura me peguei admirando e pensando nessa árvore com folhas de borboleta... ;)

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

As 20 primeiras páginas... [Lendo Lolita em Teerã]

Outro dia estava conversando com a Luara e ela saiu com essa: "Li as 20 primeiras páginas e resolvi comprar o livro...". Fiquei curiosa e perguntei se ela fazia isso sempre; eu acho que não conseguiria ler 20 páginas, gostar, parar a leitura e refazer o percurso com outro livro, rs. Por outro lado, a ideia ficou martelando na minha cabeça e hoje resolvi testar não para escolher um livro para comprar e sim para escolher a próxima leitura.

Ando com TANTOS livros interessantes aqui para ler que escolher o que ler no momento tem sido cada vez mais difícil! Além disso, gosto de ler vários livros ao mesmo tempo de gêneros diferentes... ;)

Bom, selecionei alguns dos livros que chegaram aqui e outros que sei que quero ler em breve...  intercalei um novo e um antigo (no sentido de que já tenho há algum tempo na estante). A pilha ficou enorme! kkk
No topo, deixei o Lendo Lolita em Teerã. Além de entrar na categoria "estava esquecido na estante esperando por mim", ele é edição econômica e venho também incorporando essa regra na minha vida: ler meus livros de bolso e passar para frente. 

No mais devo dizer que eu sabia que precisava de um livro que me inspirasse (é, a vida está meio cinza estes dias, rs). Abri o Lendo Lolita...



Sabe quando o livro te conquista desde a epígrafe? ;)

Parte da sinopse, para quem não conhece: "A autora iraniana Azar Nafisi nos conduz à intimidade da vida de oito mulheres que precisam encontrar-se secretamente para explorar a literatura ocidental proibida em seu país. Durante dois anos, antes de deixar o Irã, em 1997, Nafisi e mais sete jovens liam em conjunto Orgulho e preconceito, Madame Bovary, Lolita e outras obras clássicas sob censura literária. A narrativa de Nafisi remonta aos primeiros dias da revolução islâmica liderada pelo aiatolá Khomeini (1979), quando ela começou a lecionar na Universidade de Teerã, em meio a um turbilhão de protestos e manifestações."

Prossegui...


< 3

E quando o livro te chama para ser testemunha? Tem como negar?



Não precisei chegar até a página 20! Desde o início, eu já tinha certeza que queria entrar na sala junto com as alunas de Azar Nafisi, queria conhecer suas histórias de vida e suas experiências de leitura, queria testemunhar suas dores e não as largaria de jeito algum!

Agora o difícil é ver a pilha de próximas leituras e achar que consigo fazer novamente a escolha através dessa técnica... ;(
Por outro lado, é muito bom saber que tenho livros ótimos me esperando na estante, na mesa de cabeceira, na sala... em resumo: na casa inteira e no mundo lá fora também, rs... 





E vocês, costumam ler a parte inicial do livro para decidir se compram/lêem ou não? O que acham dessa ideia?

Abraços e ótimo final de semana!



terça-feira, 29 de outubro de 2013

Tess Gerritsen e a série policial Rizzoli e Isles - leitura de novembro para o fórum!

Conheci Tess Gerritsen através de uma indicação da minha chefe (na época) em 2005 ou 2006. Costumo dar muito crédito quando pessoas que me conhecem bem acreditam que vou me identificar com a leitura. E com esta indicação em especial a experiência foi muito boa!

Comecei pelo famoso O Cirurgião e não parei mais. Se antes eu já gostava do gênero suspense policial, pude perceber que o chamado suspense médico também me agrada ainda mais. ;)

Tess, nome escolhido por Terry Gerritsen, nasceu na China em 1953, mas emigrou bem pequena com sua família para os Estados Unidos, onde vive até hoje. Formou-se em medicina e exerceu a profissão apenas até ter certeza que sua vocação era outra: a escrita. ;)

A autora conheceu o sucesso de vendas e de crítica com Harvest, publicado em 1996. Esta é a sua primeira aventura no subgênero que a consagrou: o thriller médico. Desde que começou a escrever, Tess produziu 26 livros de ficção; todos na área do suspense, e 17 deles suspenses "médicos". 

Com O Cirurgião, de 2001, a escritora alcançou sucesso mundial e hoje está traduzida em mais de 30 línguas. A partir desse livro, Tess inicia uma série que conta com duas personagens principais: Rizzoli, a policial, e Maura Isles, a médica legista. São estes os livros dela que eu adoro! ;)



Livros da Série Rizzoli & Isles publicados no Brasil na ordem de escrita:
O Cirurgião (escrito em 2001)
O Dominador (2002)
O Pecador (2003)
Dublê de Corpo (2004)
Desaparecidas (2005)
O Clube Mephisto (2006)
Relíquias (2008)
Gélido (2010)

Além destes, Tess publicou recentemente mais um que ainda não chegou por aqui e que já desejo muito ler!!! (The Silent Girl, 2011)

Li todos os livros da série Rizzoli & Isles publicados no Brasil e meus preferidos são: O CirurgiãoDesaparecidas, O Clube Mephisto e Gélido. (Dublê de Corpo também é muito bom e, por ser o primeiro centrado em Isles, também figura nos meus preferidos! ;)

Uma das características que mais gosto nos suspenses de Tess dessa série é a forma como ela entrelaça aspectos da vida e da psicologia individual das suas duas personagens principais no contexto da investigação dos crimes. E é por isso, aliás, que acho que a série é muito melhor quando lida na ordem; de modo algum sugiro que se leia um dos livros do meio ou fim primeiro: perder a conexão é perder parte da graça da série.


Tess também é especialista desfechos e em cenas finais; a escrita dela mantém a tensão e o suspense em vários momentos do livro; mas os finais são (quase) sempre cheios de adrenalina! Fora isso, gosto muito das suas ideias para os crimes e as relações dos mesmo com mazelas sociais. Os meus livros preferidos são aqueles que acho melhor executados em termos justamente da conexão entre o fundamento do suspense (o fio condutor), enredo e entrelaçamento com as histórias pessoais de Rizzoli e Isles.

Entretanto, sua escrita não é uniforme (até porque ela escreve um livro por ano, gente!) e, em alguns livros, acho que ela exagera nos clichês e no tratamento dado a alguns aspectos ligados às personagens título da série. Em outros, a caracterização dos demais personagens envolvidos não é tão bem feita (como em Relíquias). Mas nada disso ofusca o brilho de Tess: a cada lançamento novo da série eu corro na livraria e ela tem toda minha atenção por uns dois dias de leitura reconfortante. =D

Agora preciso compartilhar uma coisa com vocês: odiei com todas as minhas forças a série de TV feita pela Fox "inspirada" nos livros da Tess! Nossa, eles conseguiram arrasar com Rizzoli e Isles e descaracteriza-las completamente transformando-as em caricaturas de barbies do suspense médico. O verdadeiro horror, o horror... Fujam!

Já li também outros suspenses de Tess como O DelatorO Jardim de Ossos e Life Support. Destes eu não gostei em absoluto apenas de O Delator que não é um suspense médico e eu achei muito fraco o enredo (apesar de partir de uma ideia interessante).

Para os amantes de suspense médico ou de suspense em geral, deixo a recomendação: confiram o trabalho de Tess Gerritsen começando por O Cirurgião. Serão horas de prazer literário e forte tensão garantidas; coisa que amamos muito, não é mesmo? ;)

E para quem precisa de um incentivo maior: O Cirurgião é o livro de debate do mês de novembro do Fórum Entre Pontos e Vírgulas! Esperamos vocês para o debate a partir do dia 20/11 no blog do fórum.

Abraços!

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Sete dias em River Falls de Alexis Aubenque

Quais os ingredientes de um bom romance policial?

Creio que eles variam para cada leitor, mas temos de reconhecer que o mistério (a tensão), o carisma dos personagens (especialmente os investigadores), a motivação para o crime (e com ela a exploração dos aspectos psicológicos do assassino ou das mazelas sociais) e o enredo são elementos que procuramos em livros deste gênero. Certo?

Pois Sete dias em River Falls é um exemplo de policial que me cativou do ponto de vista do desenvolvimento dos personagens (que são muitos!) e pela capacidade de manter a tensão.

Uma questão que eu já gostei logo de cara foi o fato do escritor limitar a trama aos sete dia do título (rs). Os dias vão passando, o enredo crescendo e a tensão se mantém; o que me levou a devorar o livro em um único dia para chegar a solução do caso! ;)

No primeiro dia, somos apresentados ao crime: o assassinato brutal de duas garotas que cursavam a Universidade local, e à movimentação em torno do fato em uma cidade relativamente pequena. O xerife de River Falls, Mike Logan, assume o caso com ajuda de membros da sua ex-equipe de trabalho em Seattle: o legista Nathan Blake e a psicóloga forense Jéssica Hurley. Ao mesmo tempo em que a dinâmica da investigação vai se desenvolvendo, acompanhamos a reação de Sarah Kent, estudante da universidade local, aos assassinatos e de toda sua "turma". Essa dinâmica dupla se desenrola até o final do livro: acompanhamos a investigação e as reações e vivências dos estudantes, bem como de outros personagens da cidade que vão aparecendo ao longo da trama.

Como falei no início, uma das coisas que mais me atrai em um policial é o desenvolvimento dos personagens - investigadores e esse também foi um aspecto que eu gostei na trama de Aubenque: Mike Logan é o policial que cansou da violência da cidade grande (Seattle) e fugiu de uma relação amorosa com Jéssica Hurley (sim, a psicóloga forense que vem para River Falls ajudá-lo!!!). Enquanto Hurley é racional e serena, Logan está visivelmente abalado desde a descoberta do crime: um serial killer em uma cidade pequena como RF é tudo o que ele não esperava quando se tornou sherife. Aos poucos vamos descobrindo que sua irritação passa também por memórias de um caso do seu passado em Seattle (não resolvido?) que envolve a agente Hurley... (ótimo gancho para o próximo livro da série! rs).

Outra coisa que Aubenque faz que chama a atenção é a capacidade de ir desenvolvendo o enredo sempre explorando aspectos distintos de acordo com o personagem envolvido. Alguns dos temas abordados: a relação da imprensa com casos de serial killers / violência, as diferentes estratégias de "sobrevivência" e relações amorosas no meio universitário, a ação da polícia (questionada de um ponto de vista ético), os estereótipos sociais e seu caráter nocivo para o estabelecimento de relações humanas.

Enfim, "Sete dias em River Falls" é um daqueles suspenses que vale a pena tanto como entretenimento, quanto como uma leitura que nos intriga por lançar várias questões relevantes sobre a forma como os crimes se relacionam com práticas impulsionadas pela estrutura social.

Falei das minhas impressões desta leitura também em vídeo: para ver é só clicar aqui!


Abraços!

*Ganhei esse livro de presente para conhecer o Selo Vertigo da Editora Autêntica. Agradeço pela atenção, Sabrina! 

domingo, 25 de agosto de 2013

Ricardo Lísias (Parte 1 - O Céu dos Suicidas)

Ricardo Lísias é paulista, tem 38 anos e publicou cinco romances e mais diversos ensaios, crônicas e contos em vários meios. Eu li O céu de suicidas no início deste ano e, recentemente, fui arrebatada por seu último romance. O texto abaixo trata da minha primeira experiência com o escritor paulistano (foi escrito originalmente para o extinto Blog 365 escritores) e amanhã falarei um pouco das impressões de leitura do angustiante Divórcio.


Resolvi escrever este post de uma maneira diferente. A proposta é desenvolver um diálogo possível com Lísias a partir de trechos do seu livro O Céu dos Suicidas (sem spoilers, claro!) e de uma palestra/conversa que o autor deu em 18 de abril de 2012 (publicada  aqui no Jornal Rascunho).

Os trechos em azul marinho são retirados da fala de Lísias no encontro publicado no Rascunho e os trechos em roxo são partes do romance (O Céu dos Suicidas: Editora Alfaguara, 2012); os demais são minhas tentativas de conversar com este autor que me intrigou bastante e que convido vocês a conhecer através deste inusitado texto.

Antes de começar, porém, é preciso falar um pouco sobre O céu dos suicidas. O ponto de partida do livro é o suicídio de um grande amigo de Lísias; o resto é ficção. O elemento central da narrativa é o personagem principal: o cara que perdeu um amigo que se suicidou tentando lidar com isso. E o texto; bom, o texto é ótimo! Em uma situação na qual não temos controle em absoluto sobre nada; na qual a dor, a raiva, a angústia tomam conta; em uma situação assim como podemos seguir vivendo? Essa é a pergunta; e o personagem de O céu dos suicidas vivencia uma verdadeira odisseia pessoal que vai te prender da primeira à última linha.

 "Desde que tudo isso começou, tenho percebido que sentir saudades significa, em alguma parcela, arrepender-se"
"Até o suicídio do meu grande amigo André, nunca tive vontade de voltar atrás com nada. Agora, comecei a sentir saudades de tudo."

Um dos primeiros elementos do texto que me chamou atenção foi a ideia de saudade evocada pelo autor.
Afinal: o que é sentir saudade? Em parte, relacionar saudade com arrependimento foi um choque para mim. Porque saudade não envolve, à primeira vista, culpa e sim uma miríade de sentimentos positivos. Temos saudade porque foi bom, temos saudade porque foi único; porque nos deu alegria, júbilo, e porque acabamos romantizando e recriando a situação (ou a pessoa) dentro de nós. Ter saudade é querer perpetuar algo muito bom que não temos mais.

Mas aí vem o Lísias e nos dá esse primeiro "tapa": ter saudade também é arrepender-se e lidar com o fato de que, de alguma maneira, você perdeu o que tinha (seja uma pessoa, seja uma situação ou algo em você mesmo...). Ter saudade é ter essa falta, esse arrependimento: essa vontade de ter de volta algo que já tivemos...
E sim, agora a saudade que eu sinto de uma vida que não vivo mais ficou muito mais presente dentro de mim... Ter saudade dói, dilacera e gera arrependimento. 


"Pra mim, ao menos, a ficção serve primeiro como uma espécie de resguardo do mundo de verdade. Quando quero me afastar do mundo de verdade ou acreditar em outras coisas ou procurar outras realidades e ir atrás de novas perspectivas, sobretudo procurando sofisticações maiores do que o dia-a-dia oferece, eu procuro a ficção. Ela oferece uma espécie de fuga possível, às vezes mais sofisticada, de mais bom gosto, um resguardo contra a vulgaridade, contra o mau gosto diário."

Ah, Lísias, essa sua forma tão poética e, ao mesmo tempo certeira, de definir algo que me encanta na literatura foi deliciosa!
Porque é preciso literatura para fugir da vulgaridade; porque é necessário ter a literatura justamente como o mundo do possível, daquilo que nos liberta do cotidiano idiotizante e que transforma muitos dos nossos sonhos impossíveis de supérfluos para vitais.
(e possível sofisticado foi ótimo! Nunca mais vou esquecer isso! ;) 


"Sempre que estou escrevendo um livro, sempre que ele já está planejado, eu acordo de manhã e faço toda a parte da obra que tenho planejada para aquele dia. E só começo as atividades diárias quando consigo encerrar aquela parte. Escrevo todo dia, pela manhã. Escrevo a mão e a lápis. Tenho, evidentemente, computador. Escrevo em folha de papel almaço. Quando encerro, uma das tarefas diárias é digitar; a primeira parte da revisão já é feita quando passo da folha de almaço para o computador. É muito lento".


Quem não gosta de saber como se desenvolve o processo criativo e quais são as manias de um escritor? 
Eu adoro!
Outra coisa que eu gosto muito é papel almaço. Obrigada, Lísias, por trazer de volta para mim o amor pelo papel almaço (comprei uma pilha! ;).


"Amanheceu um belo dia. São típicos dessas cidades horrorosas que não tem nada para oferecer além do clima ameno, o céu azul e uma brisa agradável. Um horror. Lembro-me muito bem desses dias quando fazia faculdade aqui: logo tudo evoluía para um frio enorme".


Ah, como eu me deliciei com a ironia e o humor de Lísias em O céu dos suicidas! A escrita deste livro te leva a uma experiência interessante: é rápida, intensa e muito forte. Além disso é permeada de momentos de muito humor, ironias e situações extremamente absurdas e perfeitamente "reais".


"O principal risco de um livro como O céu dos suicidas é acharem que o personagem é realmente você. Por exemplo, minha mãe acha que todo esse negócio aconteceu de fato, mesmo as passagens em que ela entra e que eu falo para ela: “mas você fez isso?”. “Você não fez isso, isso não aconteceu.” Ela já acha que aconteceu. Então, tem um problema inerente à leitura, de as pessoas fazerem uma leitura mais imediata. Porque uma coisa é fato: se eu escrever e contar o que aconteceu hoje, não é mais o que aconteceu hoje. Tem a mediação da linguagem que modificou tudo"

Dá para imaginar o tipo de pergunta que o Lísias deve ouvir repetidamente??? (Ainda mais depois de Divórcio! rs). Por uma leitura menos realista e imediatista, por favor! O trecho abaixo é o melhor:

"O bom leitor é aquele que consegue trazer o texto para os interesses dele mesmo".
"Quando as pessoas leem literatura, elas precisam esquecer um pouco o autor e colocar elas mesmas como importantes".

É isso! (sem mais palavras minhas, pois o Lísias disse tudo nessas duas frases acima. ;)


Outra do Lísias quando perguntado sobre o que é fundamental para a escrita: 
"Concentração e técnica — pelo menos pra mim. Concentração, técnica, nenhuma concessão, radicalismo com a forma, nenhuma concessão com o público, nem com o glamour, nem com o meio literário".

Esta parte eu marquei, pois também estou em um momento no qual percebo a importância de não fazer nenhuma concessão. O importante é escrever para você mesmo; escrever o que você quer dizer, soltar a sua voz, suas inquietações e interesses. Fazer concessões deforma, distrai e, invariavelmente, transtorna o resultado.

"Uma literatura vulgar se caracteriza pela preocupação excessiva com o próprio umbigo, por exemplo, a falta de preocupação com o outro, uma facilidade no discurso, uma facilidade formal muito grande, a tentativa de barateamento da linguagem, a tentativa de barateamento ideológico, a falta de resistência aos discursos dominantes, a covardia de enfrentar discursos realmente fortes, a entrega ao discurso oficial".

E esta frase para fechar o post: está boa para vocês? Porque para mim está ótima! Concordo com o Lísias em gênero, número e grau nesta questão do que é vulgarizar a literatura.
Eu não quero facilidades; eu não quero senso comum: eu quero boa literatura! O resto pode deixar comigo que eu penso.


Referências:
Lísias, Ricardo. O céu dos Suicidas. Alfaguara, 2012.
Lísias, Ricardo. Rascunho. Disponível em: http://rascunho.gazetadopovo.com.br/ricardo-lisias/
Fonte das Imagens: arlequinal.com.br e revistalingua.uol.com.br.

domingo, 11 de agosto de 2013

Entrevista a Ondjaki!

O Ondjaki já apareceu aqui e no vlog várias vezes pois acompanho com muito prazer a sua obra (mais neste post)... Imaginem então a minha emoção quando ele aceitou responder umas perguntas minhas e da Inês?!
; ))))))

Antes da entrevista, aproveito para divulgar os novos livros de Ondjaki publicados este ano no Brasil: Os Transparentes, com edição da Companhia das Letras e Uma escuridão bonita que saiu pela Editora Pallas. 

E uma informação para os que estarão na Bienal do Livro do Rio de Janeiro: Ondjaki participará na mesa "Contar-mostrar uma história: assim nasce uma criança", com Julia Friese, e Graça Lima, sob mediação de Christine Röhrig (31/08). Vamos? ;)

Abaixo a entrevista inspiradora e que só aumentou nossa admiração por este escritor e poeta de Luanda já tão querido! ;)


Inês: Viveu em Luanda, em Lisboa, no Rio de Janeiro. São três cidades diferentes, em três continentes diferentes. Para além da língua, há mais alguma coisa que as una?
Deve haver... Mas são cidades radicalmente diferentes, no tecido humano, paisagístico. Eu realmente não saberia dizer o que as une, porque mesmo a língua parece (e talvez seja) a mesma, mas depois a linguagem e o 'modo de falar' é muito diversificado. Por modo de falar entendo mais do que a fala, também o modo de comunicar, de brincar, de esperar, celebrar. É uma pergunta difícil. Tento responder daqui a dez anos.
  
Denise: Vários escritores brasileiros já foram mencionados como influentes na sua formação (Graciliano, Manoel de Barros, Guimarães Rosa e Clarice). O conto "lábios em lava", da coletânea "e se amanhã o medo", tem como epígrafe um trecho do mexicano Carlos Fuentes. Como é sua relação com a literatura latino-americana?  Quais outros escritores latino-americanos foram importantes na sua formação e te inspiram?
Costumo dizer que são mais os livros que os autores. Eu li poucos autores na sua totalidade. Gosto mais de frequentar alguns livros ou mesmo algumas passagens. Posso dizer que li razoavelmente bem Manoel de Barros, mas não posso dizer o mesmo de Clarice ou Guimarães. Eu lembro-me de ter entrado devagar nos contos latino americanos... E de ter pensado, fascinadamente assustado: "nunca mais sairei daqui..." É um pouco verdade. São muitos autores bons da américa latina. São muitos livros, muitos contos. E, para dizer a verdade, é uma grande vertigem. Admitindo que a américa latina não é uma "mancha" literária, e há muitas especificidades, mas a pujança, isso a que quero chamar de vertigem, é poderosa. Ou pelo menos toca-me desse modo. Eu penso que é um pouco o que se passa com o continente africano: as nossas realidades são muitíssimo fortes, fora, totalmente fora dos limites apenas da lógica e do racional. Não são apenas os eventos que são bons para a literatura; o modo de as pessoas interpretarem a vida, de a atravessarem, de fazerem dela matéria para o teatro ou a poesia quotidiana, isso dá material forte para a literatura. Seja fantástica ou não, a literatura vive muito desse "olhar criativo" do que já foi olhado ou vivido pela população. Penso que nesse aspecto alguns autores africanos aproximam-se de autores latino americanos. Isto tudo para dizer que não são necessariamente os nomes, os autores; é mais a "coisa toda", a escrita e até a realidade latino-americana que me fascina. Vivo no Brasil de momento, tenho a oportunidade de viajar aqui dentro, e começo agora a circular mais por outros países. Tenho uma imensa curiosidade por alguns lugares que foram literários e onde é necessário pôr os olhos, o Chile, Colômbia, Peru. Há-de chegar esse tempo. Também tenho vivido, não sei porquê, ultimamente, uma enorme ânsia de ir conhecer o Uruguay...
  
Inês: "Quantas madrugadas tem a noite", "E se amanhã o medo", "Dentro de mim faz sul", "Materiais para confecção de um espanador de tristezas". Como é o processo de criação destes títulos que, sozinhos, já têm tanto para contar?
Há títulos que nos chegam desde os primeiros dias de escrita. Ou um pouco antes. Há outros que vêm de dentro, seja da estória ou da boca de algum personagem. "Quantas madrugadas tem a noite" foi dificílimo. Teve outros títulos. De repente vi que já lá estava, numa frase do próprio AdolfoDido. Sobretudo, e acho que não sei explicar isto muito bem, o que busco é ficar bem com o título. Eu. Eu quero ficar em paz com um título, não quero arrepender-me dele uns anos depois. Isto é um compromisso poético, talvez metafísico, entre o livro, o conteúdo, e eu. "Dentro de mim faz Sul" é um dos mais equilibrados nesse sentido. Estamos todos em paz com essa sentença, o livro, o título, eu. Digo tudo isto a brincar, evidentemente. Quem escolhe o título dos meus livros são os mesmos dois vizinhos que os escrevem. Eu limito-me a assinar.


Denise: Sabemos da sua predileção pelo conto curto e pela influência de diferentes formas de linguagem nesse gênero. Quais as características mais importantes de um bom conto? Poderia citar alguns dos seus preferidos?
Isso não sei dizer... O conto tem que ser bom. Ponto final. Pode ser curto e bom. Longo e bom. E há estórias menos bem escritas. É evidente que Borges escreveu belíssimos contos. García Márquez também. Não tenho nomes presentes, mas certamente há contos de Borges, Guimarães, García Márquez, Luandino Vieira, Mia Couto, Manuel Rui, que estão entre os meus preferidos. Mas ficam sempre nomes por lembrar. Daqui  meia hora a minha resposta seria diferente. Felizmente.
  
Inês: Disse numa entrevista que a história que queria contar é que determinava a técnica linguística utilizada, se recorreria a um estilo mais poético/lírico ou mais coloquial. Se estivesse a escrever a história da sua vida, como seria a linguagem?
Boa tentativa... Ainda não sei. Mas eu já me atrevi, ainda bastante novo, a escrever longos pedaços da história da minha vida. A infância está quase toda mapeada, e algumas (outras) coisas já estão escritas (só não estão ainda publicadas). Há a tendência para ser a voz de "um certo narrador" (do "Bom dia camaradas") a tratar da infância. Mas isso poderá mudar. Realmente escreve-se com a voz possível, com a voz que temos para perseguir uma pequena obsessão. Às vezes um livro é isso, algo que precisamos de contar, algo que temos que tirar de nós. Ou algo que nos acontece sonhar em forma de escrever. Por isso não sei se dá para pensar tanto na linguagem e na técnica. Surge. Sai. Lida-se com isso. E depois logo se vê. Muito se escreve também ao reescrever...

Denise: Entre as suas diversas obras (contos, poesias e romances) existe alguma que você tenha um afeto especial? E qual foi a mais difícil de escrever?
Com os livros, por vezes, aparece um lado cruel (não sei se necessário...): estamos incrivelmente ligados a eles e depois, com a finalização ou com a publicação, há um corte. Que dói, e que é necessário. Uns tempos mais tarde, fazemos as pazes. Comigo é assim. Fico farto, zangado, frustrado ou triste nas últimas revisões. Nem sempre o processo é claro, no sentido emocional. Ou seja, movemo-nos em territórios delicados no momento da escrita. E ao sair desses territórios, já não somos os mesmos. Certamente um dos mais difíceis de escrever foi o "madrugadas". Certamente, até ao momento, o mais difícil em todos os aspectos foi "Os transparentes". Ainda não fiz as pazes com ele. E já estamos em 2013...


Inês: Eu, sendo portuguesa, experimento algum estranhamento enquanto leio os seus livros, principalmente no que toca a algumas palavras ou expressões que não conheço, muitas delas tipicamente angolanas. Esse estranhamento é, para mim, uma das partes mais marcantes da leitura. Estando a sua obra traduzida para inglês, francês, espanhol, alemão, etc., preocupa-se que, durante o processo da tradução, se possa perder algum desse encanto?
Não se preocupe, eu, enquanto angolano, também sinto (bons ou não) estranhamentos quando leio literatura portuguesa ou brasileira. Faz parte, acho eu, dessa relação dúbia de muita e nenhuma familiaridade com a lingua e as linguagens de "um outro". Quanto às traduções, faço como um dos meus personagens em relação à água fervida: rezo. Rezo para que o resultado seja o menos mau possível, porque a tradução é uma área muito delicada e por melhores que sejam as intenções, o resultado é muito aleatório... Isto é, eu não posso controlar nada. Sugiro pequenas alterações nas duas linguas que posso entender (espanhol e inglês), mas são apenas sugestões pontuais. O sentido da coisa, o ritmo, a brincadeira, a ironia, o jogo, a pausa, são os elementos que dificultam e podem valorizar uma boa tradução. Chamo atenção para isto: os tradutores ocupam-se de uma arte muito elevada, na minha opinião, e são muitíssimo mal pagos. Devia haver manifestações em prol da valorização do trabalho dos tradutores. Estou a falar a sério. Agora, como em todas as profissões, existem bons e menos bons tradutores. Por isso, vou rezar mais um bocadinho...


Denise: Em entrevista ao programa entrelinhas você afirma que o olhar sobre a guerra e sobre o passado do seu país nas suas obras procura ser um olhar prospectivo; que pense no futuro de Luanda, de Angola. (Trecho: “Nós que crescemos em Luanda na realidade, apesar das pessoas não saberem, nós fomos os mais sortudos, porque a guerra estava fora de Luanda (...). Então eu tenho muita delicadeza e muito pudor em falar desse período de guerra que era, mas não para nós que estávamos em Luanda. Eu acho que, mesmo para falar da guerra e mesmo para falar do que não está bem em Angola, nós devemos falar numa atitude já pra frente, numa atitude a apontar para o futuro. Se eu não tenho soluções, e evidentemente que não as tenho, pelo menos que o meu tratamento literário seja um tratamento que dê dignidade à situação. Porque há coisas que já são indignas: a guerra é indigna, o sofrimento das crianças é indigno. Eu não posso reforçar aquilo que é indigno”. Ondjaki, programa entrelinhas; https://www.youtube.com/watch?v=X3kY22aHsLQ). Poderia falar um pouco sobre como a literatura pode trazer novo significado para o sofrimento humano e sobre o papel da ficção para o futuro das sociedades?
Eu realmente não sei se a literatura poderá trazer um novo significado para o sofrimento humano... Eu penso que há qualquer coisa de poeticamente misterioso nisso que rodeia um livro. E o que rodeia um livro, somos todos os que vivemos a vida, os que a observamos, os que a escrevemos e os que a lemos, depois, em formato de livro. Isto é, tenho esperança que qualquer pessoa, qualquer velho ou criança, ao ler uma estória, poema ou teatro, esteja por alguns momentos numa condição de leveza. E não é leveza por ser "leve" ou "etéreo": é leveza porque está longe da sua condição quotidiana, contínua, de ser humano, ser social, ocupado, absorto no real. Perto de um livro, às vezes, estamos absortos do irreal, ou do surreal. Digamos, um livro existe mais no momento de ser lido, de ser interpretado. Quieto, ele é um objecto à espera de comunicar, e de ser desejado. Quieto, um livro é um conjunto de papel e letrinhas e ideias. Nas mãos, aos olhos de alguém, esse livro é um mundo, uma arma de imaginação, uma armadilha de desejos, um lugar de dor, fantasia e poesia. Se tudo isto, de vez em quando, em doses mínimas, puder "tocar" a humanidade, seja de que maneira for, então estamos num caminho interessante. Portanto, não sei se é verdade, mas talvez um dos papéis da ficção seja o de aproximar a Humanidade a si mesma. Ou não.


Inês: Enquanto luandense, quais as principais diferenças que encontra entre a Luanda da sua infância, descrita, por exemplo, em "Os da minha rua", e a Luanda dos dias de hoje, palco do seu novo romance "Os Transparentes"?
Não leve a mal, mas responder à sua questão é uma mera tentativa de se resumir uma coisa que leva uns bons meses a contar... E umas boas refeições e umas boas cervejas. Levei muito tempo a escrever esses dois livrinhos, sobretudo o último. Parte da sua resposta está em ambos. Parte está na vida, no dia a dia, no modo como hoje se encara a cidade... Somos todos culpados: quem manda, e quem se deixa mandar.         
  
Denise: Para quem quer começar a enveredar pelo mundo da literatura africana, quais cinco livros você recomenda?
Seria uma resposta muito difícil...........
  
Inês: Os seus livros estão cheios de referências musicais (Caetano Veloso, Jorge Palma, Adriana Calcanhoto, canções soltas como Trem das Onze entre outras). Há alguma música que lhe provoque «aquela magia de um outro mundo» de "O Assobiador"?
Trecho da obra: «(...) que mexesse não só com o ouvido das pessoas, mas alcançasse, de modo incisivo, a profundidade das suas almas, o recôndito canto onde cada um escondia as suas coisas - essa assustadora gruta a que muitos chamam âmago do ser.»
Há certas músicas, certos momentos musicais de Wim Mertens (pianista belga) e mesmo de Keith Jarrett que já me provocaram altíssimas intensidades poéticas. Boas ou menos boas intensidades. Eu escrevo muito com música, usando territórios emocionais que são causados ou encontrados por via musical.

Denise: Uma curiosidade: que livro está lendo agora? E como seleciona suas leituras?

Não sei "como" selecciono... Estou quase sempre a ler poesia, não de modo sistematizado, mas conforme me apetece. Livremente. Mas acabei de reler "Ninguém escreve ao coronel" (García Márquez); li "A indestrutível condição de ter sido" (Helena Terra) e hoje mesmo comecei "Sabina e os manuscritos do Kuíto" (Arnaldo Santos). 

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Obrigada, Ondjaki! ;)

E um agradecimento especial também à linda Juliana Gervason que ajudou a tornar possível esta entrevista! ;)

PS: Esta entrevista também será publicada no Blog da  Inês, amiga querida com a qual tenho o enorme prazer de compartilhar tantas alegrias literárias e da vida!!!