sábado, 4 de abril de 2015

Novo (velho) Projeto de Leitura: Romances do século XX


Em 2012 iniciei um projeto de leitura inspirada pelo livro do Llosa "A Verdade das Mentiras". Ver aqui o post original onde comento um pouco o livro do Llosa.

O projeto foi um fracasso retumbante e li apenas 7 livros dos 18 propostos... (vergonha define.)

Porém sou brasileira e latinoamericana; ou seja, não desisto fácil não, pessoas! Resolvi retomar este projeto amor e o diálogo literário com os ensaios do escritor peruano que tanto prezo.
Desta vez me proponho a ler a totalidade dos livros comentados pelo Llosa: 35. Como já li sete, lerei os 28 restantes em um prazo não estipulado. Para começar, lerei os livros que já tenho aqui em casa até o final deste ano: são 14. (haha)

Para quem se interessou, aqui vai a lista completa do A verdade das mentiras: (perdoem pelas fotos toscas!)






Ao lado os 14 livros que pretendo ler ainda em 2015. Entre eles: alguns que quero ler há muito tempo, muitos clássicos absolutos e também escritores que tenho uma vontade enorme de conhecer: Nabokov, Hemingway, Faulkner, Lessing, Hesse, Boll. 

Enfim, o primeiro a ser lido (ainda em abril) é o livro da Blixen: Sete Narrativas Góticas. Haverá debate desta obra no Fórum Entre Pontos e Vírgulas em 25 de abril, então esse é certo para este mês. Além disso, já li A Fazenda Africana dela e me apaixonei por sua escrita; então estou muito animada para ler!

Em seguida, pretendo ler os fininhos (kkkkk): Hemingway, Hesse e Solzhenitsyn... provavelmente.
Vou atualizando aqui no blog (ou no canal) o andamento do projeto de tempos em tempos, ok?

Quem mais topa ler grandes romances do século passado e debater com base também nos ensaios do Llosa? ; )



sexta-feira, 3 de abril de 2015

Leituras de fevereiro ( O mês mais incrível da vida em termos de leituras? SIM!)

Fevereiro não foi um mês, foi um ano incrível e deixou saudades. Li 10 livros e acho que essa marca pessoal vai ser difícil de bater em um futuro próximo; mas não falo isso pela quantidade apenas e sim pela qualidade das leituras.

1. David Copperfield de Charles Dickens

David, Dickens, 1000 páginas de puro amor e admiração pela escrita, narrativa, enredo, personagens.... Um puta romance!!! O mais amado e autobiográfico do grande escritor inglês. Personagens mais incríveis, engraçados e trágicos dos últimos tempos, o começo de livro mais triste e mais arrasador que já li. Preciso falar mais? Leiam!

Teve debate lá no fórum (aqui) e foi ótimo também! Muitas pessoas lindas fizeram vídeos e estão todos recomendados lá no nosso site amado.

2. Stoner de John Williams

Já falei aqui no post anunciando a parceria com a Rádio Londres de quanto esse livro é incrível e do quanto gostei da leitura. Definitivamente estará nas melhores leituras do ano!

Pelo que eu soube, a primeira edição já esgotou, mas vem aí uma nova e melhor (com nova revisão), introdução e bookmark especial. Stoner merece!


3. Reze pelas mulheres roubadas de Jennifer Clement

Jennifer Clement entrou para minha lista de escritoras das quais quero ler TUDO! A Rocco acertou muito em lançar esse romance inspirado em pesquisa com mulheres que sofrem vários tipos de violência no México.
O livro é ótimo; fiz resenha lá no canal. : )

4. A Prostituta Respeitosa de J. P Sartre

Peça do Sartre que incluí no Desafio Livrada 2015. A trama tem como pano de fundo a questão da segregação racial no EUA, mas trata do grande tema da obra de Sartre: a má-fe e, por conseguinte, do coração de sua perspectiva existencialista. Os personagens todos acabam apresentando facetas da má-fe: ou seja, da falta de escolhas legítimas e da vida de aparências. 

5. Os Cavalinhos de Platiplanto de J J (amado) Veiga

Vai ter vídeo, pq JJ Veiga entrou para minha vida com FORÇA depois dessa leitura. Livro cinco estrelas, favorito já e muito, MUITO, incrível! < 3

6. A incrível e triste história de Cândida Erêndira - Gabo

Gabo sempre é amor, mas confesso que eu estava tão profundamente abalada pela novidade dos contos do Veiga que não saboreei tanto os contos deste livro do gabo. Três deles eu amei: O afogado mais bonito do mundo, Baclaman: o bom vendedor de milagres (muito incrível!) e o conto que dá título ao livro. Mas é um livro que pretendo reler no futuro para poder dar o devido valor.

7. A neve estava suja do Simenon

Simenon já é o cara do romance policial para mim; mas ler esse romance considerado mais profundo dele me impactou muito. No livro acompanhamos de forma muito intensa o jovem Frank Friedmaier se tornar um assassino na França ocupada pelos nazistas. A incursão pela psicologia e experiências do personagem é feita de uma forma fantástica. A escrita de Simenon é impecável!

8. Cantiga de Findar de Julián Herbert

TODO MEU AMOR POR ESSE LIVRO e pela coleção Otra Língua em vídeo lá no canal.

E viva México, cabrones!

9. Mrs Dalloway de Virginia Woolf

Livro que eu tinha medo (pavor, na verdade) de ler e que me surpreendeu demais: simplesmente AMEI, a escrita da Virginia em primeiro lugar, mas também o romance e, em especial, o personagem Peter. 

Também teve debate aqui no Fórum Entre Pontos e Vírgulas.

10. O Fotógrafo de Lefèvre, Guibert e Lemercier

Falo sobre esta Graphic Novel de que gostei muito no post anterior aqui do blog.

Acho que deu para perceber o quanto fevereiro se transmutou em um lindo ano de ótimas leituras. Realmente não lembro de ter lido tantos livros muito bons e ótimos juntos em um só mês assim!  < 3

segunda-feira, 16 de março de 2015

O Fotógrafo de Lefrèvre, Guibert e Lemercier



O Fotógrafo é uma HQ baseada no relato e nas fotos de Didier Lefrévre sobre sua primeira viagem ao Afeganistão acompanhando uma missão do Médico sem Fronteiras (MSF). O ano é 1986 e o contexto é o do conflito entre o exército do governo comunista, impulsionado pelos russos, e a resistência Mudjahidin.

A HQ tem uma proposta muito interessante: combina as fotos de Lefrévre com quadrinhos para contar a sua história e, ao mesmo tempo, mostrar a realidade do povo afegão.

Acompanhamos todo o envolvimento do fotógrafo desde a sua chegada ao Paquistão (onde ele se junta aos médicos e outros profissionais do MSF), a trajetória de cruzar clandestinamente a fronteira para entrar do Afeganistão, a instalação do posto de atendimento dos médicos, a missão propriamente dita e o atendimento e contato com os afegãos; até o retorno de Lefrévre para o Paquistão e, posteriormente, para a França.

O texto foi adaptado de um livro de memórias do fotógrafo no qual ele conta, na verdade, todas as nove viagens que fez ao Afeganistão. Gostei muito do trabalho de transformação dessa obra em quadrinhos e fiquei super interessada em ler o livro autobiográfico do Lefrévre.

A combinação de fotos com o texto e os desenhos ficou muito incrível: Guibert e Lemercier fizeram bonito na edição. E as fotos são  belíssimas.  Em especial, o dualismo cromático das fotos em preto e branco e dos quadrinhos com tons terrosos fortes e um azul pálido ficou ótimo!



Posso dizer que apenas duas coisas eu não gostei nesta edição: a primeira é a divisão da HQ em três volumes fininhos que achei desnecessária. Merecia uma edição em um volume só e em capa dura. A outra é algo que não é exatamente um problema da edição: o número de fotos que aparecem muito pequenas. Dá para perceber claramente que são os negativos dos filmes reais e que a intenção é mostrar também todo o trabalho das fotos; mas fica muito pequeno em alguns momentos e não dá para apreciar tanto, na minha opinião.

As belas fotos de Lefrévre são, certamente, o grande charme da HQ. Nelas podemos ver o olhar que ele vai assumindo sobre a experiência e o seu amor crescente pelo Afeganistão: que se relaciona com o seu povo, com as paisagens e também com as enormes dificuldades vividas (pelo povo afegão e também pelo próprio fotógrafo; num certo sentido a HQ conta sua própria história de descoberta, de dor e superação).


Em vários momentos, Lefrévre fala de quanto algumas pessoas acabaram sendo muito impactantes para ele e de sua relação com elas; que era de admiração, muitas vezes, mas também de raiva, confusão e desespero.

Além disso, a HQ acaba mostrando um pouco também a relação entre os afegãos e seus líderes. Nas imagens à direita está Najmudin, um dos afegãos que mais impressiona o fotógrafo e com o qual este manterá sempre contato. As imagens mostram como Najmudin é bonito e forte; ao longo do texto vamos conhecendo sua influência no grupo e sua integridade.

Uma das coisas que mais gostei ao ler essa HQ foi também conhecer o trabalho impressionante do MSF; Lefrévre explora bastante como era a vida destes médicos que se dedicaram mais de uma vez a ir para contextos extremamente perigosos com o único intuito de servir e praticar a medicina. Também fala do relacionamento entre os médicos e a população, entre ele e os demais integrantes da missão (em sua maioria médicos) e nos conta suas histórias de vida.



Por fim, o sofrimento dos mais indefesos (as crianças e os mais velhos) é retratado também de forma muito bela e delicada.

Uma HQ que merece ser lida e divulgada, sem dúvida!


domingo, 15 de março de 2015

Parceria com a Rádio Londres!

Este é um post rápido para compartilhar uma alegria: a Rádio Londres, editora que abriu as portas tem muito pouco tempo em terras nacionais, é a mais nova parceira deste blog!

Conheci a editora através deste post dos espanadores e logo entrei em um frenesi ao saber da publicação de Stoner. Quem acomapanha o canal sabe que vi a indicação deste livro aqui nas melhores leituras do ano da Inês e fiquei com muita vontade de ler. 

Logo que vi o catálogo da Rádio Londres fiquei impressionada de querer ler praticamente todos os livros que a editora iria lançar. Inicialmente comprei Stoner e A vida em Espiral.

O primeiro é de John Williams, foi publicado em 1965 e esquecido durante muito tempo. Mas teve um revival há alguns anos e desde 2012 tornou-se um best-seller mundial. A vida em Espiral é do escritor senegalês Abasse Ndione, tem como personagem central um taxista traficante de maconha e foi publicado em 1985. Como amante de literatura africana, fiquei muito empolgada ao saber que este livro é lendário em Dakar. De modo geral a editora promete trazer bons livros de literatura estrangeira contemporânea; livros que fazem sucesso sim, mas em certos nichos mais cults e europeus e norte-americanos que não são publicados por aqui.


Por enquanto, só li Stoner e AMEI! Na época não consegui fazer um vídeo para falar dessa leitura, pois o livro mexeu MUITO comigo. Stoner é um professor universitário que estudou e trabalhou toda sua vida na Universidade do Missouri. É um homem comum, simples, que não teve nenhum reconhecimento especial na universidade, sendo apenas lembrado vagamente pelos colegas (fato que tomamos conhecimento na primeira página do livro). O enredo não faz nada além de contar toda sua vida. Falando assim parece simples e estranho todo esse frisson em torno da obra de Williams; mas o modo como esta obra foi escrita, o Stoner que acabamos por conhecer e a simbiose entre escrita e personagem é belíssima. Além disso o livro toca em algumas questões que certamente nos tocam fundo e de uma maneira mais existencial. Assim estão as questões da vocação, da dedicação profissional, do amor e das decepções nestes dois campos da vida, bem como na própria razão de ser da universidade e no seu funcionamento (este ponto certamente interessará mais a quem também vive neste meio, como eu). Enfim, ainda vai sair um vídeo lá no canal sobre esta leitura; quando sair atualizo este post.

No mais só queria dizer que estou bem feliz de ter sido selecionada para ser parceira da editora, pois tenho muito interesse em várias obras que a Rádio Londres já lançou e as que estão por vir. ; )

Para conhecer mais esta editora sugiro o vídeo dos Espanadores e o  face da RL: facebook.com/radiolondreseditores.


quinta-feira, 5 de março de 2015

Leituras de janeiro


(Post absolutamente atrasado, mas a vida é assim. Como tenho o objetivo de deixar aqui registradas impressões de leitura para o futuro, vou publicar os resumo de janeiro assim super tarde mesmo e, a partir de agora, sempre falarei das leituras do mês anterior no início do mês - corrente -).

Janeiro foi um mês meio molengo (por conta do imenso calor! e das minhas férias), mas consegui me dedicar à leitura e foi um ótimo começo do ano literariamente falando.

1. Suíte em quatro movimentos da Ali Smith

Queria conhecer a autora e também queria um livro diferente para estrear o Kindle Voyage que comprei na minha viagem ao Chile no final do ano passado. Esse livro da Ali Smith estava em promoção na amazon e foi assim que juntei a fome com a vontade de conhecer a escrita da autora.

Gostei bastante; quatro estrelas. Agora quero ler o Hotel Mundo. 

2. AMOK - Beneth

Livro que traz tirinhas com um humor mórbido que tem como personagem principal Amok: um menino que tem vontade de comer o cérebro ou o coração das pessoas com molho pesto. Como não amar?

Dei três estrelas e meia, mas foi só porque achei que algumas questões tratadas ficam repetitivas (ou porque sou chata e não tenho sensibilidade para tirinhas?).

3. A noite da encruzilhada - Simenon

Devoro tudo que é do Simenon; com este não foi diferente. A trama é simples, mas este tem personagens que eu gostei muito e tem também um clima de tensão que se mantém até o final da história. Maigret cada vez mais se tornando um dos meus detetives favoritos da vida!

Falei destes três primeiros livros do ano aqui.

4. Tête-a-Tête da Hazel Rowley

Biografia da relação sui generis de Simone de Beauvoir e Sartre: AMEI! 5 estrelas e daqueles para reler no futuro. Hazel Rowley consegue fazer um livro que tem ao mesmo tempo uma narrativa fluida e profunda e questionadora em vários momentos. A edição tem fotos belíssimas de Simone e uma coisa que eu gostei muito foi a inclusão de trechos de diversas obras de Simone e Sartre nos momentos certos, bem como explicações das questões filosóficas e políticas bem feitas e claras. É um excelente trabalho de pesquisa e escrita: muitas palmas para a Hazel!
Criei o #ProjetoBiografias por conta dessa leitura. Tem vídeo aqui e aqui para falar desse projeto amor!

5. Duas Vidas: Gertrude e Alice da Janet Malcolm

Engatando firme no mundo das biografias, li em seguida este livro curto da Malcolm sobre alguns aspectos da vida de Gertrude Stein e de Alice B. Toklas. O livro é divido em três partes e todas ficam meio inacabadas, abertas. A autora começa se perguntando como Gertrude e Alice deixaram seu judaísmo incógnito no decorrer de suas vidas e como sobreviveram na França ocupada. O ponto central é como isso não aparece nas obras autobiográficas que Gertrude publicou. Em um segundo momento, Malcolm empreende uma investigação sobre The making of Americans e seu lugar como obra literária na vida de Gertrude; essa foi a parte que eu achei mais interessante. Ao longo do livro, Malcolm discute as possibilidades de uma biografia, as dificuldades de conhecer questões mais profundas da vida das pessoas sem, de alguma forma, que o afeto ou a forma da pesquisa interfiram nesse processo. Porém, não achei que ela conseguiu ser muito feliz neste livro em específico ao tratar destas questões.

6. Middlesex - Jeffrey Eugenides

Fiz um vídeo sobre este livro fantástico do Eugenides. Personagens inesquecíveis: Cal, Desdêmona e Esquerdinha! < 3

7. Uma Rua de Roma - Patrick Modiano

Meu primeiro contato com o autor ganhador do Nobel de Literatura no ano passado (e sim, foi por isso que quis conhecê-lo). Confesso que o livro me intrigou, mas não de forma definitiva. Dei quatro estrelas pois ele é muito bom em alguns aspectos. O mais interessante é o clima todo da obra que tem um personagem desmemoriado em busca de sua identidade como mote para falar também de uma sociedade que se encontra em um processo de reconstrução, por um lado, e de esquecimento e memória, por outro (a França da década de 60). 


E também li metade de David Copperfield, esse livro incrível que eu amei perdidamente! (e que vai aparecer no resumo de fevereiro. ;)

sábado, 10 de janeiro de 2015

Retrospectiva Literária - 2014

Em 2014 li 78 livros, um pouco menos do que em 2013 (85). No começo do ano li bem mais que no segundo semestre; resultado direto do volume de trabalho que adquiri a partir de agosto. Abandonei uns 10 livros, três deles leituras ótimas, mas que não estavam fluindo no momento que peguei para ler: Crônica da casa assassinada (que li até a metade e preciso pegar de volta, pois a escrita do Lúcio Cardoso é incrível!), Os Luminares (calhamaço lovers: adiante que o livro é bom! Retomarei em breve, espero) e, por fim, Se um viajante numa noite de inverno: um dos melhores começos de livro de TODOS o tempos! (Livraço esse do Calvino, li até a pág.100 mais ou menos, mas estava viajando e aí desandei na leitura…). 

Uma das questões que percebi ao ver a lista de leituras de 2014 é que participei de ótimos debates e encontros literários; o ponto alto desse ano difícil com certeza foram estes encontros lindos!

Destaco como melhores leituras e debates do nosso Fórum Entre Pontos e Vírgulas2001 uma odisséia no espaço (muito bom!!!), O Obsceno pássaro da noite de José Donoso, A máquina de fazer Espanhóis do Mãe e A História Secreta da Donna Tart, danada essa mulher! rs.
Também li outros livros para o fórum que foram incríveis, embora não tenha participado muito dos debates por razões diversas (A Fazenda Africana, A autobiografia de Alice B Toklas, O Amante, Duna - ou seja, o Fórum rules!).
Além destes, foi muito lindo participar do debate ao vivo de O Jogo da Amarelinha do grande Cortázar no Leituras Compartilhadas dos queridos Espanadores. <3>

Depois deste breve balanço emocional, vamos à lista e suas respectivas categorias (me inspirei no formato que a Lua fez ano passado):

MELHORES LEITURAS

Por ordem decrescente!


5. É Isto um Homem? do Primo Levi - Esse livro me marcou muito! nele, o autor narra o período de quase um ano em que viveu no Campo de concentração de Auschwitz. No entanto, com suas memórias, Primo Levi não apenas descreve vivamente a destruição do homem neste contexto, mas também reflete muito sobre a condição humana no campo de extermínio e sobre a força da palavra e da linguagem. Um livro que deve ser lido e relido, um capítulo da história da humanidade que precisa sempre ser revisto e repudiado.

4. Amada da incrível Toni Morrison - Que LIVRO!!!! Que escritora maravilhosa! Baseado em uma história real, Morrison nos mostra a força da escrita e da literatura de uma forma única. LEIAM.

3. A Fazenda Africana de Karen Blixen - Uma das melhores surpresas do ano. Passei um carnaval incrível com a Blixen na África. Gostei demais do olhar antropológico mesclado com o literário que a Blixen teve nesta obra. Um livro que me fez questionar a nossa capacidade de olhar o outro e a cultura e a natureza de uma forma mais integrada. AMEI muito! (E quero ler todos os outros da Blixen, claro!)

2. O Obsceno Pássaro da Noite de José Donoso - Fiquei pensando nos adjetivos para qualificar essa obra… Assombroso, Fantástico, Poderoso! Foram os que pensei agora, mas poderia falar muitos mais... DONOSO, esse escritor febril que me conquistou de vez com esse livro único!

1. Grande Sertão: Veredas
Ah, gente. Como poderia ser outro o primeiro lugar se 2014 foi o ano que eu mergulhei em Grande Sertão para sair completamente arrasada e assoberbada com Guimarães Rosa, com esse épico grandioso e com RIOBALDOOOOOOOOOOO!!!! <3>

(Não consigo mais escrever/descrever meu amor por esse livro, gente! Só sei sentir…)


ESCRITORES REVELAÇÃO
(Categoria um tanto auto explicativa, mas que explico mesmo assim: escritores que euzinha conheci em 2014 e entraram para minha vida de vez: quero ler t-o-d-o-s os livros de cada um dos deles! Alguns dos escritores top 5 acima poderiam tranquilamente habitar nesta lista também, pois os conheci em 2014!)


5. Frank Herbert - fiquei fascinada com as ideias e a capacidade desde homem ao criar o universo de Duna! Emendei O Messias de Duna e aí foi AMOR demais. Definitivamente, Herbert me conquistou.

4. Simenon - Ah, Simenon me ganhou quase no primeiro livro que li dele (e que é um policial fraquinho, a saber "Pietr, o letão")... Gosto demais do seu estilo de escrita, do Maigret, da ambientação e das narrativas que o escritor constrói.

3. Gertrude Stein - Ler A autobiografia de Alice B. Toklas foi uma experiência bem interessante: fiquei fascinada por conhecer mais deste período e da vida e dos encontros de tantos artistas em Paris e também de como estas personalidades viveram as guerras. Na obra a autora nos envolve não apenas na sua vida sob o ponto de vista que ela dá à sua companheira, mas também nos dá uma ideia do trabalho de escrita de Gertrude, uma vez que são mencionadas a escrita e as intermináveis correções de obras como Três Vidas, The making of Americans... Fiquei com muita vontade de ler os outros livros dela! A começar pelo A autobiografia de todo mundo que se segue ao período narrando em Autobiografia de Alice.

2. Donna Tart - Li A história Secreta e Ahhhhhhh! Que escritora! Sim, lerei todos os livros dela.

1. Mario Levrero - A leitura foi o Deixa Comigo (que integra a coleção da Rocco Otra língua) e a certeza que saiu desta experiência é que minha vida de leitora não poderá continuar sem ler os livros do Levrero. Aproveito para agradecer a delicadeza da linda Laurita que me enviou a Trilogia involuntária do Levrero em uma edição belíssima! ;) (Esse mundo do youtube literário que aproxima leitores é incrível, não é mesmo?)


MENÇÕES HONROSAS - Ou livros e autores que surpreenderam e que fiquei triste de não incluir nas listas acima…. Ahahahahah! Vejam bem, eu sou aquela que sempre dá uma roubadinha nas tags literárias, certo? ;)


5. Francisco Goldman - Diga o nome dela. Livro que me arrebatou! Tem vídeo amor aqui. ;)

4. Rainbow Rowell - Li bem mais YA em 2014 do que nos anos anteriores ou melhor, na minha vida toda (kkkk) e a reponsável por isso é certamente a Rowell e seu LINDO Eleanor e Park!
Em 2015 não pretendo ler mais YAs em geral (não é um gênero que eu me identifique), só da Rowell mesmo que quero ler todos. rs

3. Natália Ginzburg / Marguerithe Duras - Uma das surpresas literárias mais agradáveis do ano foi o Projeto Mulheres Modernistas que começou em fevereiro de 2014 no Fórum (e continua agora em 2015!). Eu fiquei impressionada como gostei de TODOS os livros que lemos. (eu só não li o último - Contos de Katherine Mansfield, que é uma escritora pela qual eu me apaixonei quando tinha uns 18 anos, li quase tudo dela e pretendo reler!).
Me surpreendi especialmente porque algumas escritoras eu não conhecia e não esperava muito. Natália Ginzburg e seu Caro Michele e O Amante da Duras entram nessa categoria. Livros incríveis e que me deixaram com um gostinho de quero mais (no caso, quero ler mais obras dessas mulheres! ;)

2. Angústia do único Graciliano Ramos. Ler Angústia e me reencontrar com Graça nesse livro que fala tanto dele mesmo foi muito, MUITO bom! Eu entrei de cabeça na angústia do personagem e fiquei  maravilhada com essa belíssima edição que tem quase todas as resenhas que foram escritas desde o lançamento do livro! Vale muito a pena essa edição.
Uma coisa que constatei com uma certa tristeza misturada com prazer foi que quero ler muitos outros livros de literatura brasileira que não tive oportunidade no passado… Do Graça mesmo quero ler todos! Até hoje li apenas três. Em especial espero ler em 2015 São Bernardo. ;)

1. Ray Bradbury e seu ótimo Farenheit 451. Fiquei muito impressionada com esse livro e já tenho vontade de reler. Uma das coisas que mais gostei foram os diálogos e pensamentos que o autor expõe através dos seus personagens e do seu estilo poético de fazer isso. Melhor leitura do meu Projeto Distopias, com certeza!


DECEPÇÕES LITERÁRIAS DO ANO:

Johnatan Frazen e seu cultuado Liberdade que li até o fim com um pouco de raiva, rs.
Gostei da leitura, mas não amei como esperava. O livro poderia ter a metade do número de páginas que seria bem melhor… Ainda assim pretendo ler outros livros do Frazen. (Sim, essa sou eu!)

e

Joel Dicker e seu A verdade sobre o caso Harry Quebert - esse eu acho que fui esperando demais devido ao burburinho todo em torno. Devorei o livro, mas ficou aquela sensação de "What?"…
Um livro com um enredo interessante, um desfecho bom, mas a parte melosa me cansou um pouco. Além disso, eu esperava bem mais da alardeada reflexão sobre a escrita, publicação e o consumo de literatura.


HQs

Não li muitas, foram umas 10 ao longo do ano (contando séries como uma só), mas ressalto os mangás GEN e Adolf que me fascinaram. ;)


ROMANCE POLICIAL

2014 foi, definitivamente, o ano em que retornei com força na minha paixão por ler romances policiais: devorei 22 livros que podem der definidos como policiais, ainda que alguns questionem o próprio gênero (coisa que eu adoro! - o do Mario Levrero, por exemplo...).

Fiquei na maior dúvida de qual escolher aqui, até porque eu inciei séries queridas, continuei outras também muito amadas (rs) e descobri muitos bons autores de policial….

MAS, é preciso escolher então aqui vai: recomendo muitíssimo o ótimo e engraçado O Livro Roubado do Flávio Carneiro. Muito bom!
Fiz uma resenha em vídeo aqui.

E foi isso. Que venha 2015 com ótimas leituras para todos nós, pessoas lindas! Beijos!

sexta-feira, 9 de maio de 2014

A garota silenciosa de Tess Gerritsen

A garota silenciosa é o nono livro da série policial escrita por Tess Gerritsen que tem como protagonistas Jane Rizzoli, a policial, e Maura Isles, a médica legista. Já falei aqui da minha relação com a escritora e de como sou fanática por esta série: daí que a cada livro novo corro para ler! ;)

Posso dizer que fico feliz de ter mais motivos ainda para acompanhar os livros de Tess pela sua capacidade de sempre criar algo novo: Gélido, o oitavo livro da série, foi bem surpreendente e diferente do que a autora vinha fazendo.

Em A garota silenciosa novamente vemos Gerritsen renovar a série com uma história que é ambientada no bairro de Chinatown, traz vários elementos da mitologia chinesa, possui um ar mais sombrio e uma dose forte de suspense em vários momentos. Ah, sim, e é protagonizada por várias mulheres: outro elemento das histórias de Gerritsen que eu gosto!
Nos seus diversos romances policiais, a autora chama atenção para dramas sociais muito ligados a diversas formas de sujeição e exploração das mulheres e às distintas formas de lidar com estas questões.

A trama gira em torno de um assassinato ocorrido no bairro de Chinatown que parece ter sido feito com um tipo muito raro de espada, pois a pessoa teve decepada sua mão de uma forma muito precisa. Rizzoli assume o caso e Maura a auxilia até certo ponto; mas o foco deste volume é Rizzoli e a participação da legista é um tanto acessória neste volume. Este foi, aliás, um dos motivos que me levou a não dar 5 estrelas para o livro (dei quatro!): no início parece que nossas duas protagonistas participarão ativamente do caso, mas Maura Isles acaba saindo de cena. No plano da vida pessoal das protagonistas ocorre um abalo na relação das duas, pois Maura depõe contra a atuação violenta de um policial e Rizzoli, embora não pratique este tipo de violência e nem seja favorável,  acaba questionando o rigor ético de Isles.

O enredo combina a investigação sobre este misterioso crime e o envolvimento de Rizzoli e sua equipe em outros crimes ocorridos em Chinatown no passado. E aspectos ligados a mitologia chinesa e às artes marciais vão permeando várias descobertas.

Gostei muito do fato de que a trama se desenrola em torno de vários crimes e a ligação entre os mesmos esconde questões que aparecem no início da trama. O desfecho é bem interessante e com uma boa dose de ação e tensão. (*** Alerta de pequeno spoiler - visão sobre o final do livro: adoro vários finais dos livros desta série; este é mais interessante não pelo aspecto da surpresa - creio que este desfecho tem previsibilidade de um lado e grata surpresa do outro, rs -, mas pelo modo como Tess liga o final a uma mudança interessante em Rizzoli).

Falei um pouco mais desta leitura (e de outros romances policiais lidos em abril) no vídeo abaixo:



Abraços!


*Livro solicitado na parceria com o Grupo Editorial Record.

domingo, 20 de abril de 2014

Do meu amor por Gabo e de alguns demônios

"Ao amanhecer de quinta-feira pararam os cheiros, perdeu-se o sentido das distâncias. A noção do tempo (...) desapareceu por completo. Então não houve quinta-feira"
(Do conto Isabel vendo chover em Macondo)


Desde a triste notícia da morte do Gabo há três dias várias imagens, sentimentos e fantasmas povoam minha mente… Mesmo sabendo que no meu coração ele viverá para sempre, não pude deixar de me sentir tão pequena e só como eu era antes de conhecê-lo... O tempo parou e eu voltei a encontrar não apenas meus fantasmas, mas a dor de não poder tê-los ao meu lado.

Cresci admirando os títulos e capas dos livros de Gabriel García Marquez na estante dos meus pais. Lembro que O outono do patriarca era um dos que mais me intrigava; pelo título e pela capa. Meus pais e seus amigos falavam de vários escritores latino-americanos, mas uma coisa que ficou no meu imaginário era como o nome Gabriel García Marquez era evocado em alguns momentos como se ele fosse parte da família; com intimidade, reconhecimento e afeição. Gabo era, desde então, um ser mitológico para mim: sua obra ainda não tinha me tocado, mas a sua figura e o que ele representava para tantos já fazia parte da minha história. Lembro vagamente de ter começado a leitura de O outono e de Crônica de uma morte anunciada (outro título que me intrigava) e não ter concluído.
  
Com uns 15 ou 16 anos, finalmente conheci a escrita do Gabo: li Cem anos de solidão e foi como uma revolução na minha vida. Como leitora eu descobria novas possibilidades da escrita até então completamente desconhecidas. Como era possível inventar com a palavra um mundo tão real e irreal ao mesmo  tempo? E com personagens tão incríveis que eu sentia que conhecia antes mesmo de ler sobre? Como pessoa eu encontrava alguém que traduzia de uma forma tão bela e poética sentimentos que eu não sabia nomear e uma sensação de pertencimento única se formava dentro de mim. E, principalmente, com Cem anos a realidade de uma literatura latino-americana se tornava incontestável, tanto quanto a vontade de que com a minha vida eu pudesse compreender melhor e também falar ou fazer algo por essa minha América Latina querida. Escolhi as ciências sociais e, no segundo semestre da faculdade eu já sabia que não poderia fazer mais nada da vida…eu tinha um lugar no mundo e isso é algo que nos confere um tipo único de solidão e, ao mesmo tempo, aquela busca contínua que nos aprisiona e que, para mim, só Gabo sabia traduzir e aplacar.

Antes disso, eu era uma pessoa entre dois mundos: minha identidade se dividia entre a origem da minha mãe, hondureña, e a do meu pai, brasileiro, e o amor de ambos pela história, literatura e música latino-americana. Quando eu era pequena, vivia entre o Brasil e Honduras e, em um certo sentido, os dois países representavam realidades tão opostas, que era difícil conciliá-las na minha cabeça e no meu coração. De um lado o espanhol, a família numerosa, religiosa e festeira, a desigualdade social extrema e um país de proporções geográficas pequenas, mas de grandes caudilhos e absurdos sociais. De outro o Brasil, bem mais modernizado, com a família pequena e silenciosa do meu pai e com uma história tão diferente - ainda que tão parecida em outros aspectos -.
O que mais diferenciava o Brasil de Honduras além das proporções, da ausência de minha imensa família e da comida (aqui não tínhamos tortia e o café da manhã era, portanto, sempre mais chato), era a língua… O português nos diferenciava não só de Honduras, mas dessa identidade coletiva que era a de todos os outros países latinos. Os amigos chilenos, argentinos, nicaraguenses e do Panamá: todos falavam espanhol! Nós éramos, na minha cabeça quando pequena, os diferentes e o português era uma língua que separava; e o Brasil esse país imenso e belo que todos amavam, porém distante, uma distância que o tornava quase irreal.

Eu fui alfabetizada em espanhol para, em seguida, voltar ao Brasil. Apesar de falar bem o espanhol ("sem sotaque, nem parece que você é brasileira!"), lembro que meus primos riam de mim quando eu falava democracia com o "acento" errado do português e também me zoavam dizendo que eu inventava palavras. Enquanto isso, por aqui, eu vivia sendo criticada nas provas e textos pois escrevia felis com "s", entre outros absurdos lingüísticos e existenciais.

Eu pensava em espanhol quando ia para Honduras e esquecia completamente o português (ao menos era assim que eu sentia); mas, quando voltava para cá eu sentia que minha Honduras, bem como a nossa latinidade, ficavam imensamente mais distantes por conta da língua e da inexistência de uma afirmação histórico-política de igualdade entre nós: quase ninguém que eu conhecia sabia onde era Honduras! Minha mãe ser hondureña era sempre motivo de caras estranhas, risinhos e até xingamentos (sim, adolescentes são seres maldosos! :).

O maior dos "absurdos" para mim era como podíamos ser tão próximos e tão distantes de Honduras, bem como da América Latina como um todo em certo sentido… O Brasil se bastava a si mesmo, mas eu e minha família não. Estávamos sempre com saudade de alguém ou de algo, real e imaginado. Desde muito cedo eu conhecia o que era nostalgia, ainda que não soubesse escrever corretamente a palavra em nenhuma língua. 

Quando eu tinha 8 anos meus pais nos mandaram para Honduras para morar com meus avós (eu e minha irmã dois anos mais velha). Eles estavam se separando aqui e acharam que, estando lá, experimentaríamos menos essa dor. A ironia é que meus avós hondureños se separaram enquanto estávamos morando com eles! :(
A casa dos meus avós era imensa (na minha mente, claro); era o verdadeiro centro do mundo familiar, o lugar de encontro semanal, de resolução dos problemas mais graves e era também o contexto que acolhia rejeitados como eu e minha irmã. Também frequentávamos bastante as casas das minhas bisavós, que eram como o paraíso para mim: muita coisa podia acontecer nestes lugares fantásticos e era com um imenso pesar que eu ia embora de lá. A casa da mãe da minha avó, minha bisavó Mercedes (da qual eu herdei meu nome), tinha um jardim interno e nela moravam várias tias mais velhas e solteiras que nos enchiam de doces e histórias; muitas delas eram de familiares e cheias de segredos e revelações - era melhor que novela! rs. Outra coisa que lembro com gosto era como nós encontrávamos a cada dia uma passagem secreta escondida, um recanto perdido da casa e o mundo de objetos velhos incríveis que minha bisavó guardava. (Minha avó também faz isso até hoje: na casa dela podemos encontrar objetos com mais de 30/40 anos!). 

Minha outra bisavó, abuelita Moncha, tinha uma casa igualmente surpreendente, pois ela guardava muitas coisas em vidros espalhados em prateleiras pelos cômodos da casa toda - o que era um tanto assustador, confesso. Além disso, ela tinha uma cozinha incrível que era meio que aberta para o quintal e cozinhava o dia inteiro em um forno de barro enquanto nós nos sentávamos e comíamos em bancos de madeira com três pés. Outra lembrança forte que tenho da minha bisavó Moncha é que ela viveu até quase os 100 anos e fazia TUDO sozinha. 

Quando eu tinha 15 anos fui para Honduras visitar minha mãe que estava morando lá. No dia seguinte estávamos na casa da minha bisavó Moncha. Ela estava doente, muito mal mesmo e não podíamos fazer mais nada: ela queria morrer em casa. Minha mãe, que é médica, ficava a maior parte do tempo com ela (quando não estava brigando com todo mundo na micro sala ao lado porque era preciso fazer algo!). No meio da noite, saí com minha mãe e minha avó para buscar comida; demoramos uns 15 minutos. Quando voltamos minha bisa estava morta. Creio que meu maior choque foi com o fato de ser tão repentino (eu não "sabia" exatamente que estávamos ali esperando a sua morte, afinal) e com o fato de que ela parecia tão menor e mais serena quando morta. No dia seguinte meu avô chorou alto feito criança durante todo o enterro como eu nunca vira; ele era o nosso coronel, sempre impassível, forte e duro, e estava ali se despedindo de sua mãe completamente destroçado! Essas duas imagens ficaram durante muito tempo comigo… 

A morte de Úrsula Iguarán em Cem anos de solidão é uma das passagens literárias mais fortes que guardo na memória (não vou contar tudo, pois alguém pode estar lendo este texto sem ter lido o livro). Úrsula é até hoje uma das minhas personagens preferidas do livro: sua força, determinação, o modo como cuidava de toda a família e como suportou (e até apoiou em certo sentido) todas as ideias loucas de José Arcádio Buendía e as guerras do coronel Aureliano Buendía (outro dos meus personagens preferidos ;)… Úrsula sintetizava todas as grandes mulheres da minha família: minhas bisavós, minha avó e minha mãe. Além disso, Úrsula, Amaranta, Rebecca, Pilar (e até mesmo a Fernanda del Carpio!) eram todas mulheres muito latino-americanas. [E o que dizer de Macondo? Macondo era a minha casa, a fusão das casas das minhas avós e bisas, de Honduras e da América Latina... Macondo era aqui e eu nunca mais deixei de me sentir próxima dessa cidade mítica, solitária e maravilhosa].

Eu comecei a ser devoradora de livros quando pequena; por volta dos 10 anos, quando voltei para o Brasil, lembro de ler tudo que me caía nas mãos (especialmente suspenses!) e com 12 lembro de frequentar a biblioteca do Campo São Bento toda semana. A literatura foi fundamental para mim nesse período de construção da minha identidade por vários motivos: me ajudou a lidar com a distância e a falta que sentia da minha família, me abriu a mente para a enormidade do mundo, me ajudou a superar minhas próprias dores muito ligadas nessa época à separação dos meus pais e a impotência que eu sentia em lidar com isso... e até me ajudou a gostar do português. ;)

Mas foi com Gabo, e com Cem anos, que eu pude vivenciar e perceber a grandiosidade dessa fusão entre vida e literatura. Gabo falava de um modo tão belo de algo que era tão real e, ao mesmo tempo tão absurdo, tão doloroso… Eram sentimentos que eu entendia, tinha vivenciado, que falavam de mim e da minha história também. E eram, agora, parte de algo que eu compreendia como um "nós", algo que me relacionava de forma definitiva a minha identidade latino-americana; que eu antes não enxergava com essa dimensão maior.

Os desmandos e absurdos cometidos pelos homens no poder, a inutilidade das guerras, a ausência de diferenças ideológicas no plano da ação/do poder e a invisibilidade dos trabalhadores: tudo isso também estava lá e nos unia! A dialética que opunha Brasil e Honduras no meu imaginário se resolvia na reconstrução da história social da América Latina que eu agora queria estudar. 

O contato com a obra de Gabo (re)significou a minha história e minhas escolhas. Por isso este texto não poderia deixar de ser tão pessoal. Por mais que o grande escritor de Aracataca tenha vários outros lugares na minha experiência de leitora, hoje, com o coração apertado, lembro de como ele foi fundamental no momento que a morte se tornou presente na minha vida,  no momento que a solidão inescapável que todos nós vivemos se fez mais real, mas também na construção do ideal que me permitiu acreditar: o de uma América Latina mais justa e igual.

Gabo nos deixou na última quinta-feira 17 de abril de 2014. Entretanto, continuará vivendo para sempre no coração de seus leitores por todo o mundo.

Hasta luego, maestro! Y gracias por todo

domingo, 6 de abril de 2014

Quem sabe um dia de Lauren Grahan

Quem sabe um dia, o primeiro livro da atriz Lauren Graham (a nossa eterna Lorelai de Gilmore Girls! ;), é um livro leve e divertido.

Acompanhamos a trajetória de Franny Banks em Nova York no final do prazo de três anos que ela mesma se impôs para se tornar uma atriz em ascensão (na Broadway). Restam seis meses para lutar pelo grande desejo de sua vida, mas até agora ela conseguiu apenas fazer um comercial de casaco de Natal, trabalhar como garçonete e fazer um curso de teatro famoso. No mais, divide um apartamento no Brooklin com sua grande amiga Jane, que trabalha como assistente de produção em um filme, e Dan, que aspira ser roteirista de filmes de ficção científica. Tudo gira então em torno da indústria da TV e do cinema e do quanto é difícil batalhar por uma entrada neste mundo. Franny aposta suas fichas no curso de teatro que está fazendo e que termina com uma grande apresentação na qual comparecem recrutadores/ "olheiros" das grandes agências de atores de Nova York.

Como nas boas comédias românticas do cinema, os melhores momentos da trama se passam nas peripécias pelas quais Franny passa em sua caminhada e na convivência e nas conversas da personagem principal com seus colegas de apartamento. ;)

Franny tem 26 anos; perdeu a mãe quando era pequena e foi criada pelo pai, um professor de literatura que vive em outra cidade e quase só consegue conversar com a filha pelo telefone. Um dos pontos altos do livro para mim foi justamente a relação de Franny com seu pai e as conversas dos dois. Na maior parte das vezes o pai de Franny, não conseguindo falar com ela, deixa recados na secretária eletrônica; mensagens que, aliás, pautam a passagem do tempo e conferem uma boa dinâmica à história. Pena só que a autora não segura o ritmo (neste e em outros pontos) até o final.

A relação da personagem com a secretária eletrônica, aliás, foi uma das boas ideias de Lauren Grahan. O livro se passa em 1995 e Franny não tem um telefone celular; a secretária é seu meio de relacionamento com o mundo e, na maior parte do livro, o uso deste recurso confere dinamismo e graça ao enredo. Franny está sempre esperando um recado de alguém da mesma forma que parece estar esperando ser aprovada (empregada) por alguém como atriz, como mulher, como pessoa...

Apesar de ser o mote central, achei que a insegurança em relação à sua atuação não é tão bem  explorada no livro. Ao mesmo tempo em que acompanhamos vários momentos de descoberta da personagem de seu potencial como atriz, a autora explora a insegurança de Franny com relação ao seu corpo, sua beleza, seu cabelo… Embora estas questões sejam elaboradas também com relação à insegurança geral da personagem sobre si mesma de forma interessante em certas partes, achei que foi um pouco clichê demais e forçada a obsessão de Franny com dietas (confesso que implico com o excesso dessa temática...).
Minha impressão geral foi a de que o livro é divertido e interessante, mas ganharia muito se fosse mais enxuto em várias partes do enredo e também na construção da personagem.

Assim, ao mesmo tempo que gostei do início do desenvolvimento da personagem com as várias tiradas através da secretária eletrônica e das conversas de Franny com Dan, duas coisas me incomodaram mais do meio para o fim do livro. A primeira é que Franny não parecia ter 26 anos! Em vários momentos, senti como se ela fosse uma adolescente e como se houvesse um certo descompasso entre uma das características da personagem (a insistência em batalhar pelo que queria) e as demais… (Para mim a obsessão com o seu peso não "colou", sabem como?). Além disso, faltou sutileza a autora em alguns momentos: estendeu demais certas passagens e explicou muito para seu leitor outras ótimas ideias que teve (como a do nome da personagem dada por sua mãe que adorava Salinger).

Enfim, gostei do tom leve e divertido da leitura, especialmente no início e no finalzinho, e de alguns insights de Lauren Grahan, mas acho que o livro ganharia muito se a autora se afastasse de alguns clichês e tornasse mais dinâmico também o "miolo" da trama.


OBS: Ganhei "Quem sabe um dia" de cortesia da Editora Record no evento Piquenique da Galera Record. ;)