Mostrando postagens com marcador Escritores. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Escritores. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Tess Gerritsen e a série policial Rizzoli e Isles - leitura de novembro para o fórum!

Conheci Tess Gerritsen através de uma indicação da minha chefe (na época) em 2005 ou 2006. Costumo dar muito crédito quando pessoas que me conhecem bem acreditam que vou me identificar com a leitura. E com esta indicação em especial a experiência foi muito boa!

Comecei pelo famoso O Cirurgião e não parei mais. Se antes eu já gostava do gênero suspense policial, pude perceber que o chamado suspense médico também me agrada ainda mais. ;)

Tess, nome escolhido por Terry Gerritsen, nasceu na China em 1953, mas emigrou bem pequena com sua família para os Estados Unidos, onde vive até hoje. Formou-se em medicina e exerceu a profissão apenas até ter certeza que sua vocação era outra: a escrita. ;)

A autora conheceu o sucesso de vendas e de crítica com Harvest, publicado em 1996. Esta é a sua primeira aventura no subgênero que a consagrou: o thriller médico. Desde que começou a escrever, Tess produziu 26 livros de ficção; todos na área do suspense, e 17 deles suspenses "médicos". 

Com O Cirurgião, de 2001, a escritora alcançou sucesso mundial e hoje está traduzida em mais de 30 línguas. A partir desse livro, Tess inicia uma série que conta com duas personagens principais: Rizzoli, a policial, e Maura Isles, a médica legista. São estes os livros dela que eu adoro! ;)



Livros da Série Rizzoli & Isles publicados no Brasil na ordem de escrita:
O Cirurgião (escrito em 2001)
O Dominador (2002)
O Pecador (2003)
Dublê de Corpo (2004)
Desaparecidas (2005)
O Clube Mephisto (2006)
Relíquias (2008)
Gélido (2010)

Além destes, Tess publicou recentemente mais um que ainda não chegou por aqui e que já desejo muito ler!!! (The Silent Girl, 2011)

Li todos os livros da série Rizzoli & Isles publicados no Brasil e meus preferidos são: O CirurgiãoDesaparecidas, O Clube Mephisto e Gélido. (Dublê de Corpo também é muito bom e, por ser o primeiro centrado em Isles, também figura nos meus preferidos! ;)

Uma das características que mais gosto nos suspenses de Tess dessa série é a forma como ela entrelaça aspectos da vida e da psicologia individual das suas duas personagens principais no contexto da investigação dos crimes. E é por isso, aliás, que acho que a série é muito melhor quando lida na ordem; de modo algum sugiro que se leia um dos livros do meio ou fim primeiro: perder a conexão é perder parte da graça da série.


Tess também é especialista desfechos e em cenas finais; a escrita dela mantém a tensão e o suspense em vários momentos do livro; mas os finais são (quase) sempre cheios de adrenalina! Fora isso, gosto muito das suas ideias para os crimes e as relações dos mesmo com mazelas sociais. Os meus livros preferidos são aqueles que acho melhor executados em termos justamente da conexão entre o fundamento do suspense (o fio condutor), enredo e entrelaçamento com as histórias pessoais de Rizzoli e Isles.

Entretanto, sua escrita não é uniforme (até porque ela escreve um livro por ano, gente!) e, em alguns livros, acho que ela exagera nos clichês e no tratamento dado a alguns aspectos ligados às personagens título da série. Em outros, a caracterização dos demais personagens envolvidos não é tão bem feita (como em Relíquias). Mas nada disso ofusca o brilho de Tess: a cada lançamento novo da série eu corro na livraria e ela tem toda minha atenção por uns dois dias de leitura reconfortante. =D

Agora preciso compartilhar uma coisa com vocês: odiei com todas as minhas forças a série de TV feita pela Fox "inspirada" nos livros da Tess! Nossa, eles conseguiram arrasar com Rizzoli e Isles e descaracteriza-las completamente transformando-as em caricaturas de barbies do suspense médico. O verdadeiro horror, o horror... Fujam!

Já li também outros suspenses de Tess como O DelatorO Jardim de Ossos e Life Support. Destes eu não gostei em absoluto apenas de O Delator que não é um suspense médico e eu achei muito fraco o enredo (apesar de partir de uma ideia interessante).

Para os amantes de suspense médico ou de suspense em geral, deixo a recomendação: confiram o trabalho de Tess Gerritsen começando por O Cirurgião. Serão horas de prazer literário e forte tensão garantidas; coisa que amamos muito, não é mesmo? ;)

E para quem precisa de um incentivo maior: O Cirurgião é o livro de debate do mês de novembro do Fórum Entre Pontos e Vírgulas! Esperamos vocês para o debate a partir do dia 20/11 no blog do fórum.

Abraços!

domingo, 25 de agosto de 2013

Ricardo Lísias (Parte 1 - O Céu dos Suicidas)

Ricardo Lísias é paulista, tem 38 anos e publicou cinco romances e mais diversos ensaios, crônicas e contos em vários meios. Eu li O céu de suicidas no início deste ano e, recentemente, fui arrebatada por seu último romance. O texto abaixo trata da minha primeira experiência com o escritor paulistano (foi escrito originalmente para o extinto Blog 365 escritores) e amanhã falarei um pouco das impressões de leitura do angustiante Divórcio.


Resolvi escrever este post de uma maneira diferente. A proposta é desenvolver um diálogo possível com Lísias a partir de trechos do seu livro O Céu dos Suicidas (sem spoilers, claro!) e de uma palestra/conversa que o autor deu em 18 de abril de 2012 (publicada  aqui no Jornal Rascunho).

Os trechos em azul marinho são retirados da fala de Lísias no encontro publicado no Rascunho e os trechos em roxo são partes do romance (O Céu dos Suicidas: Editora Alfaguara, 2012); os demais são minhas tentativas de conversar com este autor que me intrigou bastante e que convido vocês a conhecer através deste inusitado texto.

Antes de começar, porém, é preciso falar um pouco sobre O céu dos suicidas. O ponto de partida do livro é o suicídio de um grande amigo de Lísias; o resto é ficção. O elemento central da narrativa é o personagem principal: o cara que perdeu um amigo que se suicidou tentando lidar com isso. E o texto; bom, o texto é ótimo! Em uma situação na qual não temos controle em absoluto sobre nada; na qual a dor, a raiva, a angústia tomam conta; em uma situação assim como podemos seguir vivendo? Essa é a pergunta; e o personagem de O céu dos suicidas vivencia uma verdadeira odisseia pessoal que vai te prender da primeira à última linha.

 "Desde que tudo isso começou, tenho percebido que sentir saudades significa, em alguma parcela, arrepender-se"
"Até o suicídio do meu grande amigo André, nunca tive vontade de voltar atrás com nada. Agora, comecei a sentir saudades de tudo."

Um dos primeiros elementos do texto que me chamou atenção foi a ideia de saudade evocada pelo autor.
Afinal: o que é sentir saudade? Em parte, relacionar saudade com arrependimento foi um choque para mim. Porque saudade não envolve, à primeira vista, culpa e sim uma miríade de sentimentos positivos. Temos saudade porque foi bom, temos saudade porque foi único; porque nos deu alegria, júbilo, e porque acabamos romantizando e recriando a situação (ou a pessoa) dentro de nós. Ter saudade é querer perpetuar algo muito bom que não temos mais.

Mas aí vem o Lísias e nos dá esse primeiro "tapa": ter saudade também é arrepender-se e lidar com o fato de que, de alguma maneira, você perdeu o que tinha (seja uma pessoa, seja uma situação ou algo em você mesmo...). Ter saudade é ter essa falta, esse arrependimento: essa vontade de ter de volta algo que já tivemos...
E sim, agora a saudade que eu sinto de uma vida que não vivo mais ficou muito mais presente dentro de mim... Ter saudade dói, dilacera e gera arrependimento. 


"Pra mim, ao menos, a ficção serve primeiro como uma espécie de resguardo do mundo de verdade. Quando quero me afastar do mundo de verdade ou acreditar em outras coisas ou procurar outras realidades e ir atrás de novas perspectivas, sobretudo procurando sofisticações maiores do que o dia-a-dia oferece, eu procuro a ficção. Ela oferece uma espécie de fuga possível, às vezes mais sofisticada, de mais bom gosto, um resguardo contra a vulgaridade, contra o mau gosto diário."

Ah, Lísias, essa sua forma tão poética e, ao mesmo tempo certeira, de definir algo que me encanta na literatura foi deliciosa!
Porque é preciso literatura para fugir da vulgaridade; porque é necessário ter a literatura justamente como o mundo do possível, daquilo que nos liberta do cotidiano idiotizante e que transforma muitos dos nossos sonhos impossíveis de supérfluos para vitais.
(e possível sofisticado foi ótimo! Nunca mais vou esquecer isso! ;) 


"Sempre que estou escrevendo um livro, sempre que ele já está planejado, eu acordo de manhã e faço toda a parte da obra que tenho planejada para aquele dia. E só começo as atividades diárias quando consigo encerrar aquela parte. Escrevo todo dia, pela manhã. Escrevo a mão e a lápis. Tenho, evidentemente, computador. Escrevo em folha de papel almaço. Quando encerro, uma das tarefas diárias é digitar; a primeira parte da revisão já é feita quando passo da folha de almaço para o computador. É muito lento".


Quem não gosta de saber como se desenvolve o processo criativo e quais são as manias de um escritor? 
Eu adoro!
Outra coisa que eu gosto muito é papel almaço. Obrigada, Lísias, por trazer de volta para mim o amor pelo papel almaço (comprei uma pilha! ;).


"Amanheceu um belo dia. São típicos dessas cidades horrorosas que não tem nada para oferecer além do clima ameno, o céu azul e uma brisa agradável. Um horror. Lembro-me muito bem desses dias quando fazia faculdade aqui: logo tudo evoluía para um frio enorme".


Ah, como eu me deliciei com a ironia e o humor de Lísias em O céu dos suicidas! A escrita deste livro te leva a uma experiência interessante: é rápida, intensa e muito forte. Além disso é permeada de momentos de muito humor, ironias e situações extremamente absurdas e perfeitamente "reais".


"O principal risco de um livro como O céu dos suicidas é acharem que o personagem é realmente você. Por exemplo, minha mãe acha que todo esse negócio aconteceu de fato, mesmo as passagens em que ela entra e que eu falo para ela: “mas você fez isso?”. “Você não fez isso, isso não aconteceu.” Ela já acha que aconteceu. Então, tem um problema inerente à leitura, de as pessoas fazerem uma leitura mais imediata. Porque uma coisa é fato: se eu escrever e contar o que aconteceu hoje, não é mais o que aconteceu hoje. Tem a mediação da linguagem que modificou tudo"

Dá para imaginar o tipo de pergunta que o Lísias deve ouvir repetidamente??? (Ainda mais depois de Divórcio! rs). Por uma leitura menos realista e imediatista, por favor! O trecho abaixo é o melhor:

"O bom leitor é aquele que consegue trazer o texto para os interesses dele mesmo".
"Quando as pessoas leem literatura, elas precisam esquecer um pouco o autor e colocar elas mesmas como importantes".

É isso! (sem mais palavras minhas, pois o Lísias disse tudo nessas duas frases acima. ;)


Outra do Lísias quando perguntado sobre o que é fundamental para a escrita: 
"Concentração e técnica — pelo menos pra mim. Concentração, técnica, nenhuma concessão, radicalismo com a forma, nenhuma concessão com o público, nem com o glamour, nem com o meio literário".

Esta parte eu marquei, pois também estou em um momento no qual percebo a importância de não fazer nenhuma concessão. O importante é escrever para você mesmo; escrever o que você quer dizer, soltar a sua voz, suas inquietações e interesses. Fazer concessões deforma, distrai e, invariavelmente, transtorna o resultado.

"Uma literatura vulgar se caracteriza pela preocupação excessiva com o próprio umbigo, por exemplo, a falta de preocupação com o outro, uma facilidade no discurso, uma facilidade formal muito grande, a tentativa de barateamento da linguagem, a tentativa de barateamento ideológico, a falta de resistência aos discursos dominantes, a covardia de enfrentar discursos realmente fortes, a entrega ao discurso oficial".

E esta frase para fechar o post: está boa para vocês? Porque para mim está ótima! Concordo com o Lísias em gênero, número e grau nesta questão do que é vulgarizar a literatura.
Eu não quero facilidades; eu não quero senso comum: eu quero boa literatura! O resto pode deixar comigo que eu penso.


Referências:
Lísias, Ricardo. O céu dos Suicidas. Alfaguara, 2012.
Lísias, Ricardo. Rascunho. Disponível em: http://rascunho.gazetadopovo.com.br/ricardo-lisias/
Fonte das Imagens: arlequinal.com.br e revistalingua.uol.com.br.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

16 coisas que sei sobre Chimamanda Adichie


O título deste post é totalmente inspirado em 16 things you didn't know about Chimamanda Adichie.
A ideia me cativou, pois eu queria fazer um texto diferente sobre esta escritora nigeriana que eu tanto admiro! ;)

Conheci Chimamanda no ano passado e li com sofreguidão seus dois romances publicados: Hibisco Roxo (vencedor do Commonwealth Writter's Prize e do Hurston/Wright Legacy, 2003) e Meio Sol Amarelo (vencedor do Orange Prize e do National Book Critics' Circle Award, 2007); só que li na ordem inversa de produção, rs.

Junto com Mia Couto e Ondjaki, Chimamanda me abriu o olhar e a mente para uma nova literatura, para um mundo novo. Foi através de seus livros que passei a dar mais atenção à literatura africana; hoje indispensável na minha vida, mas até então quase desconhecida e inexistente no meu curriculum de leitora...

Eis que venho dividir com vocês as 16 coisas que eu sei sobre a escrita (e a vida) de Chimamanda Ngozie Adichie - e porque eu acho que os livros dela são absolutamente imperdíveis!

1. Meio Sol Amarelo (MSA) é um romance belíssimo sobre sobrevivência, descoberta, escolha e manutenção de  identidades em meio à guerra e à violência extrema.

2. A estrutura narrativa tripartite de MSA permite olhar uma sociedade e as pessoas que nela vivem, com suas diversas características culturais e históricas, sobre prismas diferenciados, multifacetados e profundos. O livro questiona o olhar simplista e os perigos de ver um povo, uma vida, uma cultura e mesmo uma guerra sob um único olhar (Tema que ela trata de forma muito interessante na palestra "O Perigo de uma história única"; não viu? Então veja abaixo correndo!!! ;)



3. Ugwu, Olanna, Odenigbo, Kainene e Richard - os personagens centrais de MSA - não vão te deixar dormir sem lembrar de suas vivências, dores, aspirações e esperanças... São todos inesquecíveis; mas Ugwu e Olanna são meus preferidos; eu praticamente vivi e dormi junto com eles por duas semanas seguidas. ;) 

4. Nesta obra (MSA) nos deparamos com três personagens chave que são como "tipos ideais" escolhidos pela autora para tratar das consequências devastadoras da guerra: Ugwu é um garoto vindo de uma aldeia pequena e que condensa a tradição e a identidade da sua etnia; Olanna é a nigeriana de classe média alta que estudou na Inglaterra e decide voltar para o seu país e participar ativamente de sua reconstrução e Richard é um inglês intrigado pela cultura e pela história nigerianas que não tem desejos de manter suas raízes e sim de criar novas. Mas é claro que estes personagens são muito mais; a tentativa de tipificá-los não visa simplificar e sim entender o ponto de partida de Chimamanda.

5. Todos estes personagens, bem como os demais de MSA, trazem à tona o conflito central do livro: as supostas fronteiras ou os limites entre o étnico, o nacional, o estrangeiro e o humano. A delimitação de identidades através da origem, da história política e social, da ideologia e das crenças e valores; contraposta à unificação do diferente através da humanidade, do amor e do perdão.

6. Entretanto, essa temática (bem como a discussão de fundo de colonização e barbárie), por si só densa e difícil, aparece no livro de Chimamanda a partir da vivência de seus personagens e não de forma direta; o que torna a leitura muito, muito mais palatável, reflexiva e envolvente. A guerra, a dor e o questionamento da realidade ganham carne e substância a partir dos dilemas e escolhas diárias de Olanna, Ugwu e Richard.

7. Em nenhum outro livro que eu tenha lido recentemente vi os temas da fome, da guerra sem sentido e o da violência extrema serem tratados de forma tão forte, realista e, ao mesmo tempo, tão humana quanto em MSA. A escrita, o enredo e os personagens de Chimamanda conseguem isso de uma forma única e muito interessante.

8. MSA também é muito interessante por outros recursos narrativos e pelos elementos históricos que recupera da guerra civil na Nigéria; mas falar aqui sobre eles estragaria a experiência da leitura, o que considero imperdoável. É preciso ler Meio Sol Amarelo; acredite: é impossível continuar o mesmo depois da imersão neste mundo!




















9. Chimamanda nasceu em 1977; tem 35 anos, é casada, mora parte do ano nos Estados Unidos onde leciona e outra parte na Nigéria e já publicou dois romances e um livro de contos. (e eu também - apenas a parte de ter nascido em 1977, claro! Ano fantástico esse, hein? rs).

10.  Hibisco Roxo (HR) é um romance primoroso onde a descoberta do amor, a vivência da dor e da incomunicabilidade se interpenetram em uma história belíssima.

11. 
Em HR acompanhamos Kambili, uma jovem nigeriana de 15 anos, em sua jornada de profundas transformações no seu modo de perceber o mundo ao seu redor. É o desabrochar de uma flor, mas não uma flor como as outras... E sim uma flor rara e linda como o hibisco roxo...




12.  Neste seu primeiro romance, Chimamanda não utiliza recursos narrativos variados: a narração em primeira pessoa de Kambili com o seu desabrochar para a realidade é o maior deles. Fora isso, o enredo contribui bastante para cativar o leitor que tem em mãos novamente (de uma forma completamente diferente) a possibilidade de reflexão sobre os efeitos dramáticos da colonização na Nigéria, a devastação das tradições locais e suas consequências sociais e políticas (não tomadas no plano estatal, mas sim no plano individual; ou seja, no que diz respeito às pessoas comuns).


13. Ngozie, o nome do meio de Chimamanda, quer dizer abençoada

(E Mercedes, o meu nome do meio, quer dizer "dar graças", perdão; ou seja, outra coisa que temos em comum - Chimamanda é abençoada e eu dou graças por mulheres como ela no meu mundo ;)

14. Ouso dizer que os livros de Chimamanda Adichie são como flores para a alma; necessários para retomar em cada um de nós uma das questões mais profundas que nos deparamos ao longo da nossa existência - o que podemos fazer com o que recebemos na nossa vida, na nossa história pessoal? O que queremos ser apesar de, ou melhor, independentemente do que as circunstâncias nas quais vivemos nos impelem?
Ou seja: para refletir sobre o que escolhemos ser, acreditar e como podemos agir no mundo ao nosso redor. Questionamentos estes que são inescapáveis e que eu quero me fazer e responder a cada momento em que elas se colocam na minha vida. E quando a literatura me permite continuar pensando, elaborando e respondendo à estas e outras perguntas; aí é que amo mais ainda esta arte única que é a de escrever estórias e agir através delas na história humana.



15. Comecei a ler os contos de Chimamanda no livro The Thing Around your Neck e posso dizer que as grandes virtudes de sua escrita e seus eixos temáticos principais estão lá em cada história curta e, principalmente, na escolha de personagens e situações vividas.

16. Por último, só tenho a dizer mais uma coisa:
Chimamanda, queremos mais, MUITO mais! 

;)






sexta-feira, 29 de março de 2013

O meu Neruda


Pablo Neruda dispensa apresentações; um dos poetas mais lidos, aclamados, publicados e traduzidos em vida do grande século XX! Ganhou o nobel em 1971 e já era então um poeta consagrado no mundo inteiro. Ainda assim eu gostaria de falar um pouco da sua vida antes de contar a minha experiência com a sua poesia única.

Pablo Neruda nasceu no Chile e começou a escrever poemas desde muito novo. Publicou seu primeiro poema aos 14 anos; com 22 já tinha alguns livros de poesias  aclamados em sua terra natal. Depois viajou o mundo  trabalhando como cônsul e passou anos decisivos para sua vida vivendo na Espanha. Foi grande amigo de poetas como Federico García Lorca, Miguel Hernandez, Vinícius de Moraes e também aluno de Gabriela Mistral.

Sua vida na Espanha e a experiência da guerra o marcaram profundamente. Sua relação com o mar, com sua última esposa e com o destino de sua pátria e sua gente o transformaram nos nosso grande Neruda. ;)

Nasceu chileno, mas se tornou latinoamericano, espanhol e portador de uma esperança. Nasceu Ricardo, mas se tornou Pablo: o poeta de Isla Negra, o homem que amava com desespero e ternura, que gostava de colecionar artefatos ligados ao mar e outros inusitados, que admirava Matilde, que sabia amar seus amigos com toda sua alma, que nunca perdeu a capacidade de fazer perguntas e que era solidário a uma causa. Porque um poeta escolhe o que quer ser, assim como escolhe cada palavra e cada estrofe de sua poesia. Assim Pablo escolheu ser o grande Neruda e nos deixou uma obra poética inigualável.



Início de um dos meus poemas favoritos de Neruda!


O meu Neruda da adolescência foi o de Vinte Poemas de Amor e uma Canção desesperada (que poesia inesquecível! Como ficar imune diante das estrofes "Todo te lo tragaste, como la lejanía. Como el mar, como el tiempo. Todo en ti fue naufrágio!"). O poema 15 ressoa na minha alma até hoje... porque fez parte de trocas e confidências de um amor único e, na época, impossível...



Depois veio o Neruda de Barcarola (A preferida? Não consigo escolher, mas amo demais essa poesia...)  de Canto General, do belíssimo Reunión bajos las nuevas banderas e de España en el corazón... Não posso deixar de ler esta estrofe inúmeras vezes e sentir um aperto no peito:

"(...) Y una mañana todo estava ardiendo
y una mañana las hogueras
salían de la tierra
devorando seres
y desde enonces fuego,
pólvora desde entonces
y desde entonces sangre.
Bandidos con aviones y con moros,
Bandidos con sortijas y duquesas,
bandidos con frailes negros bendiciendo
venían por el cielo a matar niños,
y por las calles la sangre de los niños
corría simplemente como sangre de niños. (...)"
Trecho de España en él corazón, Pablo Neruda.


E hoje ainda tenho um mundo de poesias do Neruda para descobrir (que bom!). 

As últimas alegrias foram Ode a uma estrela e Livro das perguntas que comprei nas belíssimas edições da Cosac para homenagear o querido poeta. 

Neruda merece edições especiais assim; e como! (e nós, leitores apaixonados, agradecemos!)

Gostei muito dos dois livros, mas O Livro das perguntas é de uma singeleza imperdível, necessária e vital. 

Recomendo com força a todos os que sabem que é melhor ter sempre perguntas do que respostas. ;)


Para terminar este post e começar bem o dia (rs) dois poemas absolutamente incríveis escritos em 1973 (este também, um ano para não esquecer jamais): Vinicius em homenagem a Neruda e  Pablo: sereno, terno e simples no fim da vida (Pido silencio).


"Breve consideração
à margem do ano assassino de 1973.

Que ano mais sem critério
Esse de setenta e três...
Levou para o cemitério
Três Pablos de uma só vez.
Tês Pablos, não três pablinhos
No tempo como no espaço
Pablos de muitos caminhos:
Neruda, Casals, Picasso.

Três Pablos que se empenharam
Contra o facismo espanhol
Três Pablos que muito amaram
Três Pablos cheios de Sol.
Um trio de imensos Pablos
Em gênio e demonstração
Feita de engenho, trabalho
Pincel, arco e escrita à mão.

Três publicíssimos Pablos
Picasso, Casals, Neruda
Três Pablos de muita agenda
Três Pablos de muita ajuda.
Três líderes cuja morte
O mundo inteiro sentiu...
Ô ano triste e sem sorte:

- VÁ PARA A PUTA QUE O PARIU!
"
Vinícius de Moraes (em: História natural de Pablo Neruda. A elegia que vem de longe).



"Pido silencio

Ahora me dejen tranquilo
Ahora se acostumbren sin mí
Yo voy a cerrar los ojos
Y solo quiero cinco cosas
Cinco raizes preferidas
Una es el amor sin fin
lo segundo es ver el otoño
No puedo ser sin que las hojas
vuelen y vuelvan a la tierra
lo tercero és el grabe invierno
la llúvia que a mí
la acarícia del fuego en el frío silvestre
En cuarto lugar el verano
redondo como una sandía
la quinta cosa son tus ojos
Matilde mía, bién amada,
no quiero dormir sin tus ojos
no quiero ser sin que me mires
Yo cambio la primavera 
por que me sigas mirando"
Pablo Neruda





Para ler Neruda (serviço):

Pablo Neruda Antologia Poética. Livraria José Olympio Editora. (Edição Bilíngue! Bom preço na Estante Virtual;)
Ode a uma Estrela, Pablo Neruda. Cosac Naify
Livro das Perguntas, Pablo Neruda. Cosac Naify (tradução primorosa de Ferreira Gullar)
História natural de Pablo Neruda. A elegia que vem de longe, Vinicius de Moraes. Xilogravuras de Calasans Neto. (Uma belíssima homenagem a Neruda!)
Pablo Neruda Antología General. Real Academia Española, edición comemorativa. (MUITO boa, vende com preço bom na FNAC).